segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Black Rain : Redefinição do pós-punk contemporâneo

 O Black Rain surge no Nordeste da Inglaterra, região historicamente associada à decadência industrial, ao isolamento social e a uma longa tradição de música sombria. É nesse ambiente frio, urbano e marcado por tensões que a banda se forma e começa a se destacar rapidamente dentro da nova geração do pós-punk britânico.

Desde seus primeiros passos na cena underground local, o Black Rain construiu uma identidade clara: música direta, atmosfera opressiva e total rejeição a qualquer tipo de neutralidade estética. Ainda em seus primeiros shows, a banda passou a chamar atenção por suas enérgicas apresentações ao vivo, elemento que rapidamente se tornaria central em sua proposta artística.

Embora se mova entre os territórios do post-punk e goth rock, o Black Rain nunca se posicionou confortavelmente dentro de um único rótulo. A própria banda sintetiza essa postura com um lema que se tornou assinatura.

Essa ambiguidade define não apenas o som, mas também a postura do grupo. O Black Rain se apresenta como uma banda que entende o passado Joy Division, UK Decay, Killing Joke, Southern Death Cult, mas se recusa a reproduzi-lo de forma passiva. O resultado é uma sonoridade crua, tensa e sem ornamentos desnecessários, que reflete tanto a herança industrial do norte inglês quanto a urgência do presente.

Lançado em 14 de julho de 2025, o álbum autointitulado Black Rain representa a consolidação dessa trajetória inicial. Mais do que um cartão de visitas, o disco funciona como um documento biográfico sonoro, capturando a essência da banda em estúdio e no palco.

A estrutura do álbum foge do convencional: são cinco faixas gravadas em estúdio e quatro registros ao vivo, uma escolha que evidencia a importância do desempenho físico e da entrega emocional como parte fundamental do projeto. O Black Rain não busca perfeição técnica, mas sim impacto.

As canções carregam um peso atmosférico constante, linhas de baixo dominantes, guitarras cortantes e vocais que oscilam entre o distanciamento ritualístico e a confrontação direta. É música feita para ecoar em espaços pequenos, suados e escuros, isto é, território fértil ao pós-punk.

Pouco tempo após o lançamento, o álbum começou a receber atenção de nomes centrais da crítica especializada. Mick Mercer, referência absoluta no universo goth, classificou o trabalho como “Best New Goth Album of the Week”, reconhecimento raro para uma banda em início de trajetória.

John Robb, do Louder Than War, destacou a capacidade do grupo de reinterpretar o lado mais sombrio do pós-punk de forma nova e convincente, ressaltando que o Black Rain não soa como uma repetição automática de fórmulas do passado.

Esse reconhecimento confirma algo que a cena underground já vinha percebendo: o Black Rain ocupa um espaço próprio dentro do pós-punk atual, distante tanto do revival estéril quanto da pasteurização alternativa.

A reputação construída em estúdio rapidamente se fortaleceu ao vivo. Após um show de estreia com ingressos esgotados, o Black Rain passou a dividir palcos com bandas como The Foreign Resort e Twisted Nerve, além de uma apresentação anunciada ao lado de The Chameleons, um dos nomes mais emblemáticos do pós-punk britânico.

O próximo passo já está definido: em 2027, o Black Rain realizará sua estreia internacional no Dark Skies Over Witten Festival, na Alemanha, um dos eventos mais respeitados do circuito pós-punk e goth europeu.

O álbum Black Rain está disponível nas principais plataformas de streaming, além de edições físicas em vinil, CD e cassete, reforçando a ligação da banda com a cultura underground e o valor do objeto físico.

Mais do que relatar o surgimento de uma nova banda, a trajetória inicial do Black Rain revela algo mais raro: coerência estética desde o início. Em um cenário frequentemente dominado por modismos e repetições, o Black Rain surge como um projeto que entende suas origens, assume suas contradições e transforma tudo isso em som.

Para o Caverna Sonora, trata-se de um nome que merece acompanhamento atento não como promessa futura, mas como presença real e já incômoda dentro do pós-punk contemporâneo.



sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Social Youth Cult

 

Surgida das sombras industriais de Newcastle-upon-Tyne, a Social Youth Cult representa a nova geração do pós-punk britânico que não teme o confronto entre o ritual e o ruído. Formada há pouco menos de dois anos, a banda vem se firmando como uma das forças mais intensas e autênticas do cenário gótico e underground do norte da Inglaterra. O line-up da banda é formada por Shaun Greer (vocal) e (guitarra), Holly Moore (guitarra), Alex Thibaut  (bateria e vocais secundários) e Jack Stephenson (baixo).

No início, o grupo flertava com sonoridades mais darkwave, mas rapidamente abandonou a pele inicial para revelar algo mais denso e instintivo. Hoje, o som da SYC é marcado por uma energia percussiva e atmosferas carregadas, evocando a urgência ritualística do Killing Joke, o experimentalismo das primeiras bandas do pós-punk do norte inglês e a crueza de nomes como Bauhaus e The Pop Group. O resultado é um som que resiste à categorização: atmosférico e direto, sombrio e político, gótico e Gang of Four ao mesmo tempo. 

Com apresentações intensas e um público em expansão, a Social Youth Cult já tocou para plateias esgotadas em diversas cidades do Reino Unido, incluindo um show recente ao lado do Vision Video em Newcastle, consolidando sua reputação como uma das bandas mais vibrantes da cena contemporânea. 

O aguardado álbum de estreia, The Lighthouse, foi gravado no lendário The Bunker, em Sunderland, e reúne oito faixas que exploram os limites entre o transe e a desordem. O disco será lançado em 2 de novembro de 2025, antecedido pelo single “Close to Nothing”, que chega às plataformas digitais em 18 de outubro. Além das versões em streaming, o lançamento contará com edições em CD e fita cassete, seguidas por uma tiragem limitada em vinil LP

A Social Youth Cult fará o show de lançamento durante o Whitby Goth Weekend, um dos eventos mais emblemáticos da cultura gótica britânica, no dia 2 de novembro, no Crafty Cove. O grupo encerra o ano em plena ascensão, com novas datas ao vivo e a certeza de que seu culto apenas começou. 

 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Miserylab : Projeto de Porl King ( Rosetta Stone)

 A Death That We Can Cure, Primary, 1 of 9

Depois do fim do icônico Rosetta Stone em 1998, Porl King não desapareceu nas sombras ele simplesmente redirecionou sua energia criativa. Ainda no final dos anos 1990, ele deu início ao miserylab, projeto solo que, por muitos anos, foi mais uma entidade fantasmagórica do que uma banda tradicional. Inicialmente criado como um selo pessoal para remixes e produções (com clientes como o My Vitriol e os premiados Elbow), o miserylab logo assumiria vida própria.

O nome, originalmente grafado como misery:lab, carregava um duplo sentido tanto uma crítica séria à experimentação animal quanto um comentário autodepreciativo sobre o conteúdo melancólico de sua música. Após alguns esboços em 2000 que ficaram engavetados, King só passou a lançar material de fato em meados dos anos 2000, quando a produção de terceiros deixou de ser prioridade.

Em 2005, King ressuscitou o projeto via MySpace, plataforma essencial para músicos alternativos da época. Em 2007, soltou o Vaporware EP, disponível para download gratuito, com arte para impressão  um gesto DIY que ecoava o espírito dos fanzines. 

O primeiro álbum completo, Function Creep, saiu em abril de 2008 e marcou a transição para um som mais post-punk e centrado em guitarras. Apesar da preferência por lançamentos digitais, a demanda dos fãs por edições físicas resultou em uma tiragem limitada em CD. Pouco depois, veio uma versão estendida da faixa “Be There Tomorrow”.

O segundo disco, A Death That We Can Cure, foi lançado em 5 de novembro de 2008, propositalmente no aniversário da Conspiração da Pólvora, com referências políticas e sociais afiadas. A capa exibia um gráfico comparando mortes por terrorismo com as causadas pela fome. O título é tirado de uma das célebres bushisms (frases atrapalhadas do ex-presidente George W. Bush). Em 2009, saiu o terceiro álbum, Freedom Is Work, e, na sequência, uma coletânea na Rússia intitulada Lab Samples, reunindo faixas dos primeiros discos mais a soturna “No Cure For Life”.

O quarto álbum, From Which No Light Escapes, emergiu em fevereiro de 2011. Inicialmente com outra proposta lírica, foi retrabalhado por King para refletir os acontecimentos do turbulento 2010. Com resenhas favoráveis, a obra foi comparada a Joy Division e ao Killing Joke inicial. A revista Glass destacou o amadurecimento do som e a carga de crítica social presente nas letras.

Em maio, o single “Appeal to Fears” apareceu no SoundCloud, com vocais adicionais de Kathryn Woolley  que também participou de “Gods Amongst Your Friends”, lançada pouco depois como faixa avulsa. Em julho, o potente manifesto “Children of the Poor” foi lançado com videoclipe e, semanas depois, os distúrbios civis tomaram as ruas da Inglaterra. A faixa foi até utilizada em uma campanha da loja Schuh, criando um contraste curioso entre crítica social e marketing comercial. 

O quinto álbum, Void of Life, saiu em outubro de 2011 em edição limitada, acompanhado de um remix estendido de “Children of the Poor” e do vídeo de “People”. Com uma sonoridade mais lapidada, o disco rendeu elogios do site Brutal Resonance, que lhe deu nota 9/10 e comparou o impacto emocional da última faixa, “Last Day”, à intensidade de “The Top” do The Cure. O Dominion classificou o álbum como o segundo melhor do ano, atrás apenas do Esben and the Witch.No fim de 2011, mais duas faixas foram disponibilizadas: “five:one one” e “Fear for the Future”.

Em 2012, “Children of the Poor” e “People” ganharam lançamento em vinil sete polegadas, edição limitada a apenas 120 cópias, acompanhadas do EP digital Somewhere Between. No mesmo ano, saiu a compilação Documentary, unindo CD e vinil com faixas de Freedom Is Work em diante, via o selo francês D-monic. 

Porém, 2012 também marcou o surgimento de outro projeto de King: o enigmático In Death It Ends, voltado ao ocultismo e à ambientação sombria. Seu primeiro lançamento, Forgotten Knowledge, saiu em fita cassete  uma homenagem ao misticismo analógico dos anos 70. Com o crescimento desse novo projeto, o miserylab entrou em hiato. 

Em 2019, Porl King resgatou diversas faixas do miserylab e as lançou como Seems Like Forever, sob o nome Rosetta Stone trazendo o passado de volta com nova roupagem. O Rosetta Stone, inclusive, voltou a lançar material inédito em 2020, selando de vez a ponte entre as várias fases de sua trajetória.

 Discografia – miserylab (Álbuns de Estúdio)

  1. Function Creep – 2008

  2. A Death That We Can Cure – 2008

  3. Freedom Is Work – 2009

  4. From Which No Light Escapes – 2011

  5. Void of Life – 2011



 


segunda-feira, 5 de maio de 2025

Whirlywirld

Whirlywirld, foi um projeto de Ollie Olsen no final dos anos 70 e início dos 80. Surgida no caldeirão criativo de Melbourne, a banda foi a primeira de uma série de colaborações marcantes entre Olsen e o baterista John Murphy, dois nomes essenciais para quem quer entender a trilha mais obscura e eletrônica do underground australiano.

Ollie Olsen começou sua trajetória em 1976 como guitarrista da banda The Reals, que chegou a dividir palcos em salões suburbanos com os The Boys Next Door, banda seminal que mais tarde se transformaria no The Birthday Party. Após sua passagem pelos Reals e pelo breve projeto The Negatives.

Olsen fundou The Young Charlatans, ao lado de Rowland S. Howard, Jeffrey Wegener e Janine Hall um verdadeiro supergrupo embrionário, cujos membros deixariam marcas profundas em outras bandas lendárias como Laughing Clowns, The Saints e os próprios Boys Next Door.Apenas com essa ficha corrida, já daria pra colocar Olsen no panteão dos arquitetos do pós-punk australiano. Mas foi com a Whirlywirld que ele rompeu de vez com as convenções do rock.

Formada em 1978, a Whirlywirld nasceu com uma missão clara: deixar as guitarras em segundo plano e explorar sintetizadores, ruídos, loops e atmosferas eletrônicas, distanciando-se do formato tradicional das bandas punk da época. A formação inicial trazia Olsen (já imerso em “eletrônicos” ao invés de guitarra), Murphy na bateria e percussões variadas, além dos tecladistas Andrew Duffield e Simon Smith, e o guitarrista Dean Richards

Apesar de ensaiarem com rigor, a banda se apresentava ao vivo muito raramente. A estreia nos palcos aconteceu no lendário The Crystal Ballroom em 1979, pouco depois do lançamento do primeiro EP homônimo. Duffield sairia logo após para se juntar aos Models, sendo substituído por Philip Jackson.

Ao todo, a Whirlywirld fez apenas 14 apresentações ao vivo em toda sua existência — mas cada uma delas foi um evento. Mudanças de formação seguiram, com Richards, Jackson e Smith deixando a banda. Entraram Arnie Hanna (guitarra) e Greg Sun (baixo), enquanto Olsen e Murphy mergulhavam ainda mais fundo nas possibilidades sonoras com saxofone, clarinete, loops de fita e percussões eletrônicas

Essa nova fase da banda foi registrada em dezembro de 1979 no estúdio York St., resultando em um segundo EP, novamente autointitulado, lançado em fevereiro de 1980  um verdadeiro artefato sonoro de vanguarda.

Com o fim da banda, Olsen e Murphy seguiram juntos em projetos como The Beast Apparel, Hugo Klang (com performances na Inglaterra e o single Beat Up The Old Shack) e posteriormente na cultuada Orchestra of Skin and Bone. No fim dos anos 80, Olsen encerraria a parceria formando o grupo NO, enquanto Murphy seguiria sua jornada em outras frentes experimentais. 

Ambos ainda voltariam a se cruzar no Max Q, projeto inusitado de Olsen com Michael Hutchence, do INXS  uma colaboração que colocou músicos do subterrâneo lado a lado com o mainstream australiano.Em 1986, Olsen regravou "Win/Lose" para a trilha sonora do cultuado filme Dogs in Space, e a canção "Rooms for the Memory", cantada por Hutchence e originalmente da Whirlywirld, se tornaria um hit nacional em 1987 uma espécie de vingança tardia das sombras sobre os holofotes do pop.

Discografia

Whirlywirld -  ( 1979) Ep

Whirlywirld -  ( 1980) Ep

The Complete Studio Works (1986) Coletânea

 Singles

"Sextronics"/"Eyebrows Still Shaved" (1980)

The Complete Studio Works, Primary, 1 of 4

 

Voigt/465

Slights Unspoken, Primary, 1 of 6

Pouco antes da década de 1980 consolidar o pós-punk como linguagem global, um grupo de jovens australianos estava criando algo singular nos subterrâneos de Sydney. O Voigt/465, ativo entre 1976 e 1979, pode não ter tido o reconhecimento merecido em sua época, mas hoje figura como uma das bandas mais instigantes do cenário alternativo australiano.

Com uma sonoridade que misturava estruturas roqueiras à base de canções com experimentações livres e dissonantes, sua música carregava influências evidentes do krautrock e um espírito genuinamente "faça-você-mesmo".

Formado por um grupo de amigos de escola, Rod Pobestek (guitarra), Lindsay O’Meara (baixo), Phil Turnbull (sintetizador, órgão e vocais), Rae Macron Cru (vocais) e Bruce Stalder (bateria).O Voigt/465 começou seus primeiros ensaios em 1976, e se apresentou de forma esporádica ao longo de 1977. Em 1978, gravaram quatro faixas no Axent Studios, no subúrbio sul de Kogarah, dando os primeiros passos rumo a um legado curto, mas memorável. 

Com a saída de Stalder no meio de 1978, Mark Boswell assumiu as baquetas e a banda passou a se apresentar com mais frequência, ganhando certo culto entre o público alternativo de Sydney. Nesse mesmo ano, lançaram por conta própria o single “State” / “A Secret West”, utilizando duas das gravações feitas no Axent. Tocavam regularmente em casas como o Sussex Hotel, além de viajarem para apresentações em Melbourne, expandindo o raio de influência de seu som desconcertante.

O Voigt/465 foi apontado como a "banda de 1979" por Clinton Walker em Inner City Sound, livro fundamental que documenta o punk e pós-punk australianos. Mas o fim já se desenhava. Com a saída de O’Meara rumo ao Crime and the City Solution, os membros restantes decidiram gravar um último registro: o álbum Slights Unspoken, lançado em edição limitada em setembro de 1979. Mais do que uma despedida, o disco é um artefato raro que captura a tensão e a liberdade criativa de uma época em que tudo ainda estava sendo inventado. 

Após o fim, os caminhos seguiram em direções igualmente férteis. O’Meara voltou de Melbourne para se juntar ao Pel Mel, enquanto Turnbull cofundou o Wild West, grupo que também contou com Rae Macron Cru nos vocais.

O Voigt/465 permanece como uma joia escondida do pós-punk australiano não apenas pela sonoridade ousada, mas pela postura intransigente diante da indústria musical. Em tempos de transição, foram um ponto de ruptura. Um ruído necessário.

Discografia

Slights Unspoken (1979) 

"State" / "A Secret West" (1978)  Single

One Faint Deluded Smile CD (2001) Coletânea

sábado, 3 de maio de 2025

X-Beliebig

Formada no início dos anos 80, por Franz Heuschneider (vocais e guitarra),Günther Rettenbacher (baixo) e Ernst Weber (bateria).Com Guitarras ríspidas, percussões quase primitivas e letras carregadas de angústia e ameaça: assim era o som do X-Beliebig, banda que representou como poucas a face mais sombria da Nova Onda austríaca nos anos 80. Para muitos, eles foram a resposta da Áustria ao Joy Division, um trio que não apenas absorveu a estética pós-punk, mas a moldou com sotaque e contexto próprios, criando uma sonoridade inconfundível e visceral.

O X-Beliebig surgiu da cena alternativa de Viena, então fervilhando com influências vindas do punk, do krautrock e da eletrônica industrial. Seu álbum homônimo, X-Beliebig (1982), é considerado uma obra fundamental da Neue Deutsche Welle local, embora a banda estivesse sempre um passo à frente do rótulo. Com produção crua e um clima quase claustrofóbico, o disco trouxe um espírito inquieto e existencialista que ainda hoje ressoa nos ouvidos mais atentos. 

O single “Leben ist Blut” (“A Vida é Sangue”) destacou-se como um hino do subterrâneo europeu uma faixa marcada por sua intensidade lírica e estrutura minimalista, que fez sucesso entre os fanzines e rádios alternativas da época. Mesmo décadas depois, continua sendo um marco da contracultura sonora austríaca. Como bem definiu Martin Blumenau, respeitado jornalista da rádio FM4, “a melhor banda austríaca desconhecida da época”.

A banda se dissolveu por volta de 1983. Apesar da curta trajetória, o legado do X-Beliebig reverbera entre colecionadores de vinil obscuro e apaixonados pela estética dark do início dos anos 80. Suas canções dialogam com temas como alienação, corpo e política, antecipando inquietações que continuam pulsando no presente. A palavra “x-beliebig” significa, em alemão, algo como "aleatório", "qualquer um" ou "comum" uma ironia, já que a banda foi tudo, menos comum.

Discografia

O.Tannenbaum (k7) - 1981

X-Beliebig (1982) – LP

Leben ist Blut / Sehnsucht (1982) – single 7"

Coletânea

1980-1982 Complete Works   2015

X-Beliebig, Primary, 1 of 2

 

 

 





Tablewaiters

Ativa entre 1980 e 1986, a banda australiana Tablewaiters foi um daqueles nomes que, embora jamais tenham lançado um álbum completo, deixaram sua marca no submundo do pós-punk de Sydney. Formada pelo vocalista Graeme Synold e pelo tecladista Tony Ameneiro, ambos estudantes de arte na Alexander Mackie College of Advanced Education, o grupo logo se destacou pela sonoridade densa e performances intensas.

Após alguns ajustes iniciais na formação, a banda se estabilizou em 1981 com Gye Bennetts (ex-The Agents) na bateria, Ian Robertson no baixo e Ed Lee na guitarra, ao lado dos fundadores. Esse quinteto chegou a gravar um álbum, Gate, sob a produção do lendário Lobby Loyde, no estúdio Alberts em Sydney. No entanto, problemas financeiros impediram o lançamento do disco as fitas permaneceram em estado bruto, e algumas cópias piratas de baixa qualidade circularam com o tempo. O single planejado, “Between the Lines” / “Access”, também acabou engavetado. 

A banda era agenciada pela SCAM (Suss City Artist Management), responsável por outros nomes notórios da cena australiana como Sardine v, The Sunnyboys, Machinations e Local Product. O envolvimento com esse coletivo garantiu à Tablewaiters uma presença constante nos palcos, participando de turnês nacionais e abrindo shows para nomes consagrados como Simple Minds, The Psychedelic Furs, Split Enz, INXSA, Midnight Oil, Models, Eurogliders, Laughing Clowns, Hunters & Collectors e The Birthday Party.

Com a saída de Bennetts após as gravações de Gate, a bateria ficou a cargo de Phillip Hyrwka, também ex-The Agents. Em 1984, a banda lançou seu único registro oficial: o compacto duplo A-side “Scattered Visions” / “Small Quiet Children”, lançado pelo selo Powderworks Records & Tapes, com capa assinada por Ameneiro. As faixas capturam bem a estética melancólica e existencialista do grupo, com atmosferas sombrias sustentadas por sintetizadores marcantes e vocais dramáticos. 

No circuito local, o Tablewaiters foi figurinha carimbada em casas como Civic Hotel, Trade Union Club e Governor’s Pleasure, além de manter residências no clube Macy’s, em Melbourne. Com um som que flertava tanto com o pós-punk britânico quanto com o experimentalismo eletrônico, o grupo ganhou respeito entre músicos e público, mesmo sem alcançar projeção comercial.

Após a dissolução da banda em 1986, Tony Ameneiro seguiu carreira nas artes visuais, tornando-se um artista plástico reconhecido. Ed Lee mudou-se para Wollongong, onde tocou em diversas bandas locais, como ATE. Já em 1992, Lee e Ameneiro retomaram a parceria no projeto Chihuahua Chihuahua, lançando de forma independente um álbum homônimo. Gye Bennetts, por sua vez, seguiu em bandas como Johnny Kannis Band, Roddy Radalj and The Surfin' Caesars, Hitmen D.T.K., The Psychotic Turnbuckles e Klondike's North 40

Mesmo com uma discografia escassa, o Tablewaiters segue como uma peça intrigante do quebra-cabeça pós-punk australiano, um daqueles segredos bem guardados que o tempo transforma em relíquias sonoras. Um nome para se redescobrir nas entrelinhas da história subterrânea.

Discografia

Singles

"Between the Lines" / "Access by Invitation"  1981

"Scattered Visions" / "Small Quiet Children"   1984

Scattered Visions/Small Quiet Children, Primary, 1 of 4