quinta-feira, 1 de maio de 2025

Essential Logic

Poucas figuras do pós-punk britânico são tão singulares quanto Lora Logic, saxofonista e vocalista que, após sua saída precoce do X-Ray Spex em 1977, formou a enérgica e cerebral Essential Logic no ano seguinte. O grupo surgiu em meio à ebulição criativa do final dos anos 70, misturando o ímpeto do punk com estruturas desconstruídas, dissonância, saxofones agudos e vocais nervosos em um som que desafiava tanto a lógica musical quanto os padrões da indústria.

Formada em 1978, a banda tinha em sua formação original: Lora Logic nos vocais e saxofone, Phil Legg na guitarra e vocais, William Bennett (que depois fundaria o polêmico projeto Whitehouse) na segunda guitarra, Mark Turner no baixo, Rich Tea (Richard Thompson) na bateria e Dave Wright no saxofone. Pouco depois, Turner seria substituído por Sean Oliver, que mais tarde integraria o Rip Rig & Panic, grupo que também flertava com jazz punk e improvisação radical. 

O primeiro lançamento da banda foi um compacto 7" lançado de forma independente, pelo selo próprio Cells. Logo depois, veio um EP homônimo pela Virgin Records em 1979, e, não muito depois, o grupo assinou com a icônica Rough Trade

O disco de estreia, Beat Rhythm News (Waddle Ya Play?), também de 1979, é um clássico oculto do pós-punk: frenético, sincopado, atonal, repleto de grooves nervosos, saxofones caóticos e letras que misturam crítica social com uma estética surrealista.

O álbum foi bem recebido por uma crítica atenta ao experimentalismo da época, sendo comparado ao The Raincoats, Pere Ubu e This Heat, embora Essential Logic nunca tenha obtido a mesma visibilidade. A sonoridade da banda influenciaria posteriormente artistas mais experimentais do pós-punk e do no wave, com seu flerte entre o jazz free-form e a energia punk. 

Durante esse período (1978–1981), Lora Logic também colaborou com outros projetos de vanguarda. Tocou com os Red Crayola, participou de gravações do grupo finlandês Kollaa Kestää, além de contribuições com The Stranglers, The Raincoats e Swell Maps, bandas todas alinhadas ao espírito de invenção que permeava a cena alternativa do Reino Unido.

Apesar dos experimentos e colaborações, a banda se dissolveu em 1980, antes que seu segundo disco fosse finalizado. As gravações seriam lançadas mais tarde como o álbum solo Pedigree Charm (1982), mantendo a assinatura sonora de Logic, mas já em outro contexto: pouco após o lançamento, ela abandonaria a carreira musical ao se envolver com o movimento Hare Krishna, optando por uma vida espiritual afastada dos palcos e estúdios. 

A volta só aconteceria em 2001, com uma nova encarnação do Essential Logic. Nessa fase, Lora reuniu ex-integrantes da banda ska Bad Manners e o guitarrista Gary Valentine (ex-Blondie), e lançou um EP com quatro faixas inéditas. Em 2002, outras quatro faixas, gravadas em 1998, foram disponibilizadas pelo site Vitaminic, uma plataforma de distribuição digital pioneira. Em 2003, foi lançada a antologia Fanfare in the Garden pelo selo norte-americano Kill Rock Stars, trazendo faixas clássicas, raridades e material solo de Logic.

Após anos de silêncio, Essential Logic ressurgiu novamente em 2022 com o álbum Land of Kali, uma obra madura, lançada pela Dome of Doom Records. Com uma sonoridade mais contida, mas ainda pautada pelo espírito iconoclasta de sua fundadora, o disco reflete influências espirituais e políticas, com destaque para a faixa-título, que critica o estado do mundo moderno sob uma lente esotérica e mística. 

Essential Logic, apesar de seu status marginal, permanece como um dos projetos mais ousados e excêntricos da primeira leva pós-punk. Ao lado de bandas como The Slits, Kleenex/Liliput e The Raincoats, foi fundamental para abrir espaço a uma abordagem mais livre, feminina e criativa dentro do rock alternativo e merece ser revisitado por quem busca autenticidade no caos.

Discografia / Álbuns de estúdio

Beat Rhythm News (Waddle Ya Play?)   1979

Land of Kali   2022

Rekalibrated   2024

Beat Rhythm News - Waddle Ya Play ?, Primary, 1 of 6

Party Day

 Glasshouse, Primary, 1 of 6

Formada em 1981 na cidade de Wombwell, nas imediações de Barnsley, South Yorkshire, a Party Day foi uma dessas joias soterradas do pós-punk britânico que, apesar do reconhecimento limitado, deixou um legado sombrio e visceral. 

Originalmente um quarteto formado pelos guitarristas Martin Steele e Greg Firth, o baixista Carl Firth e o baterista Mick Baker, o grupo surgiu das cinzas do projeto Further Experiments (ativo entre 1979 e 1981), adotando o nome definitivo e uma nova proposta sonora que os colocaria entre os segredos mais bem guardados da cena alternativa inglesa.

Com uma sonoridade descrita como "goth de punho fechado com tons de pós-punk", a Party Day lançou seu primeiro single de forma independente em 1983, através do selo próprio Party Day Records: "Row the Boat Ashore" / "Poison", que foi recebido com entusiasmo pela imprensa underground "um som encantador e delicado, de beleza singular", resumia uma crítica da época. 

O segundo single, "The Spider", mergulhava mais fundo no caos melódico, sendo descrito como “um excelente uivo punk de sucata” e conquistando espaço no influente programa de John Peel na BBC Radio 1. A crítica antecipava: “esperamos continuar vendo o grupo arrancar as raízes da indústria musical desolada e insossa”.

Em 1985, a banda lançaria seu álbum de estreia, Glasshouse, uma obra intensa e coesa, considerada sua declaração mais poderosa: “o que eles fazem, fazem com ardor absoluto”. O disco consolidava o estilo característico do grupo composições melancólicas, sim, mas impregnadas de veneno punk. 

O segundo álbum, Simplicity (1986), dava continuidade à estética emocional e crua do grupo, com faixas como Glorious Days, descrita de forma peculiar por um crítico: “a ovelha negra encantadora, ainda que ligeiramente exagerada... algo que poderia comover até os calções de Mario Lanza”.

Outra pérola da banda foi "Rabbit Pie", lançada na coletânea Giraffe in Flames do selo Aaz Records. A crítica da época foi enfática: “o destaque é o som encorpado e guiado por guitarras do Party Day... vale comprar a compilação só por essa faixa”. 

Com uma base fiel de fãs no norte da Inglaterra, a Party Day era presença constante em palcos como o Leadmill em Sheffield e no circuito alternativo de Leeds. Seu impacto ao vivo também foi registrado na imprensa: o Sounds descrevia o grupo como “uma locomotiva movida por uma bateria implacável”, enquanto a NME resumia: “eles seguram suas guitarras como se fossem AK47s... eles vibram”.

Após o lançamento de Glasshouse, Martin Steele deixou a banda por motivos de saúde, o que levou a mudanças na formação. Embora novos integrantes tenham sido recrutados, o grupo encerrou as atividades em 1988, deixando um terceiro álbum inacabado pelo caminho.

Apesar do fim precoce, a aura da Party Day permaneceu viva nas entrelinhas do underground. A banda foi destacada no livro "Gothic Rock" de Mick Mercer, e sua música continua reverberando em clubes e rádios alternativas. A faixa Atoms, por exemplo, foi incluída na compilação Strobelight Records Vol. 3 (2006), mantendo aceso o interesse pela banda. 

Em 2020, o som da Party Day voltou a aparecer em livestreams de DJs europeus no World Goth Day, como os sets de Benny Blanco e na Dark Wave Radio.Em 2021, celebrando 40 anos desde os primeiros ensaios em garagens de Wombwell, a Optic Nerve Recordings lançou Sorted!, uma antologia abrangente com todos os registros da banda, incluindo demos. Uma cápsula do tempo que comprova: o que parecia um passo da obscuridade rumo à consagração, hoje é um convite ao resgate de uma das bandas mais emocionantes do goth-punk britânico.

Discografia

Glasshouse (1985)

Simplicity (1986)

Sorted! (2021)

Singles

"Row The Boat Ashore" c/w "Poison" (1983)

"Spider" c/w "Flies" (1984)

Eps

Glasshouse EP (1985)

Music for Pleasure

Music For Pleasure, Primary, 1 of 4

Foi uma banda britânica, formada em Leeds, Inglaterra, ativa entre 1979 e 1985. Com uma sonoridade que mesclava elementos de post-punk e synth-pop, o grupo se destacou na cena alternativa do norte da Inglaterra durante os anos 1980. Fundada por Martin King (baixo), Alan Peace (vocais), Sean Wheatley (bateria) e David Whitaker (teclados). Inicialmente assinados com a Rockburgh Records, contribuíram com a faixa "The Human Factor" para a compilação Hicks from the Sticks (1980), que destacava bandas emergentes do norte da Inglaterra .​

Em 1980, ocorreram mudanças na formação: Alan Peace e Sean Wheatley foram substituídos por Mark Copson (vocais) e Christopher Oldroyd (bateria), este último ex-integrante da banda Girls at Our Best!. Com essa nova formação, lançaram os singles "The Human Factor" (regravado) e "Fuel to the Fire" (1981), produzido por John Leckie, pela gravadora independente Rage Records .​

Em 1982, Ivor Roberts substituiu Martin King no baixo, e a banda assinou contrato com a Polydor Records. Sob a produção de Mike Hedges, lançaram o single "Switchback" (1982), seguido pelo álbum de estreia Into the Rain (1982), co-produzido por Hedges e pela própria banda. Do álbum, destacam-se os singles "Light" (1982) e uma nova versão de "Time" (1983). Ainda em 1983, lançaram "Dark Crash", também produzido por Hedges. Apesar do reconhecimento, foram posteriormente dispensados pela Polydor .​

Sem contrato com grandes gravadoras, o grupo criou seu próprio selo, Whirlpool, pelo qual lançaram o single "Disconnection" (1984), co-produzido por Colin Richardson, o EP Chrome Hit Corrosion (1984), produzido por John Porter, e o álbum Blacklands (1985). Após o lançamento deste último, a banda encerrou suas atividades .​

David Whitaker, tecladista da banda, integrou o grupo The Danse Society entre 1985 e 1986. Christopher Oldroyd, baterista, participou do segundo álbum da banda Red Lorry Yellow Lorry, Paint Your Wagon (1987) .​

Apesar de não terem alcançado grande sucesso comercial, o som atmosférico e melódico do Music for Pleasure, influenciado por Kraftwerk e pelo krautrock, contribuiu para a diversidade da cena musical de Leeds nos anos 1980, uma cidade que foi um polo importante para o desenvolvimento do post-punk e do goth rock .

Discografia

Into the Rain (1982)

Blacklands (1985)

Eps

Chrome Hit Corrosion (1984)

Singles

"The Human Factor" (1980)

"Fuel to the Fire" (1981)

"Switchback" (1982)

"Light" (1982)

"Time" (1983)

"Dark Crash" (1983)

"Disconnection" (1984)

 

terça-feira, 29 de abril de 2025

The Wild Flowers

Formada em Wolverhampton, cidade industrial no coração das Midlands inglesas, The Wild Flowers surgiu em 1983 como parte daquela geração de bandas pós-punk que começavam a trilhar caminhos além das sombras de Joy Division e Echo & The Bunnymen. 

A formação original contava com Neal Cook (vocais e guitarra), Dave Newton (guitarra), Mark Alexander (baixo) e Dave Fisher (bateria). Seu som unia a introspecção melódica do pós-punk à energia mais solar e melódica que já apontava para o indie pop britânico que viria nos anos seguintes. 

O disco de estreia, The Joy of It All, saiu em 1984 pelo pequeno selo Reflex Records – um trabalho ainda bastante ancorado nas paisagens sonoras melancólicas típicas do pós-punk do interior inglês. Dele saíram os primeiros singles: "Melt Like Ice" (1983) e "Things Have Changed" (1984), mostrando um grupo que equilibrava densidade emocional e ambições pop.

Pouco depois, o guitarrista Dave Newton deixa a banda para formar os The Mighty Lemon Drops, grupo que ganharia projeção como uma das promessas da cena neo-psicodélica britânica. Em seu lugar entra Dave Atherton, e a banda continua sua jornada lançando Dust em 1987, disco do qual se destacam os singles "It Ain't So Easy" (1985) e "A Kind of Kingdom" (1986). Nesse momento, o som da banda já flertava com o college rock americano e a transição para um som mais limpo e direto era perceptível. 

Em um movimento inusitado para bandas britânicas daquele período, o Wild Flowers decide mirar o mercado norte-americano. Em 1988, tornam-se a primeira banda britânica contratada pelo selo californiano Slash Records, conhecido por lançar nomes como X, The Germs e Violent Femmes

Por lá lançam Sometime Soon (1988), disco que marca a fase mais americana da banda, com uma sonoridade mais próxima ao jangle pop e ao alternative rock da costa oeste. Em 1990, consolidam essa estética com Tales Like These, que os levou a turnês pelos EUA e aparições em rádios universitárias.

Após um hiato, ainda lançariam um último álbum em 1997, Backwoods, um trabalho mais maduro, com forte influência do rock alternativo dos anos 90 e arranjos que mesclavam guitarras etéreas com uma pegada folk introspectiva.

Apesar de nunca terem alcançado o estrelato, The Wild Flowers representam uma ponte rara entre o pós-punk britânico das Midlands e a cena college rock americana – uma trajetória que merece ser redescoberta, especialmente por quem busca sons que habitam as margens entre o underground europeu e o alternativo estadunidense. 

Discografia

1984: The Joy of It All  

1987: Dust

1988: Sometime Soon

1990: Tales Like These

1997: Backwoods   

Singles

1983: "Melt Like Ice"
1984: "Things Have Changed"
1985: "It Ain't so Easy"
1986: "A Kind of Kingdom"
1988: "Broken Chains"
1988: "Take Me for a Ride"

The Joy Of It All, Secondary, 2 of 6


Spasmodic Caress

Entre as sombras do final dos anos 70 e início dos 80, surgia o Spasmodic Caress, banda inglesa de pós-punk/new wave que floresceu fora do eixo convencional de Manchester ou Londres. Formado por Peter Masters, o grupo fincou raízes na cena independente do leste da Inglaterra, circulando ativamente por cidades como Essex, Ipswich, Colchester e, claro, Londres , no qual dividiram palco com nomes hoje históricos.

A notoriedade do Spasmodic Caress atingiu um pico importante em 1980, quando gravaram a faixa “Hit the Dead” para a lendária coletânea Presage(s), lançada em vinil 12” pelo então incipiente selo 4AD Records. A compilação foi um marco da estética pós-punk britânica, crua, melancólica, instável e reuniu também Modern English, In Camera e Bauhaus, que, à época, ainda eram apenas apostas do underground. O grupo participou de vários shows promovidos pela 4AD em Londres, consolidando seu lugar no mapa de uma cena ainda em ebulição. 

Além da faixa presente na versão física, o grupo gravou também “Register of Electors”, registrada nas mesmas sessões e posteriormente incorporada à versão digital da coletânea uma joia rara redescoberta por colecionadores do selo.

Musicalmente, o Spasmodic Caress transita entre a rigidez do art punk e as atmosferas desoladas típicas do pós-punk minimalista, com letras carregadas de tensão urbana e niilismo suave. Sua sonoridade lembra por vezes o The Sound em seus momentos mais contidos, ou o Wire da fase Chairs Missing, sem perder um toque de originalidade marginal. 

Com o fim da banda por volta de 1984, o baixista Peter Ashby seguiu explorando as fronteiras da música experimental ao lado de Barry Lamb, fundando o The Insane Picnic, projeto ainda mais radical em sua abordagem DIY e eletrônica caseira.

Pouco lembrado nas narrativas canônicas do pós-punk britânico, o Spasmodic Caress é daqueles nomes que brilham à margem, símbolo de uma época em que as bandas não precisavam de grandes contratos para existir, apenas de ideias, fita magnética e noites longas em clubes de província.

Discografia

Hit the Dead" track on Presage(s) 12" (4AD) 1980

Hillside `79 cassette only release (Falling A) 1983

Fragments of Spasmodic Caress CD (Falling A ) 2004  

Fragments Of Spasmodic Caress, Primary, 1 of 3

 


The Glove- Projeto do Robert Smith e Steven Severin

 Em 1983, dois ícones do pós-punk britânico, Robert Smith, do The Cure, e Steven Severin, do Siouxsie and the Banshees, uniram forças em um raro momento de escape criativo, resultando no efêmero porém fascinante projeto The Glove. O único fruto dessa parceria foi o álbum Blue Sunshine, lançado naquele mesmo ano, envolto em psicodelia sombria, delírios lisérgicos e um certo caos criativo.

A gênese do projeto se deu num período conturbado para ambos os músicos. Em meados de 1982, Smith estava à beira de um colapso mental após o lançamento de Pornography, o álbum mais sombrio do Cure até então. O clima dentro da banda era de tensão extrema, agravado por abusos químicos e brigas internas  culminando na saída do baixista Simon Gallup. 

Quase ao mesmo tempo, Severin via os Banshees desmoronarem temporariamente quando o guitarrista John McGeoch sofreu um colapso nervoso em pleno giro pela Europa. McGeoch foi desligado, e Smith, já familiarizado com os Banshees (ele havia substituído John McKay na turnê Join Hands em 1979), assumiu as guitarras e foi oficialmente integrado à banda em novembro de 1982.

A parceria criativa entre Smith e Severin floresceu no final daquele ano. O primeiro registro que fizeram juntos foi "Punish Me with Kisses", ainda sem pretensão de formar um projeto paralelo. A ideia do The Glove, nome tirado da luva voadora do filme animado Yellow Submarine, dos Beatles, ganhou forma durante os meses seguintes, enquanto Siouxsie e Budgie se ausentavam da Inglaterra para gravar como o duo The Creatures.

Durante o processo de criação de Blue Sunshine, o clima era tudo, menos convencional. Smith descreveu as sessões como "irreais": "Passamos 12 semanas no estúdio, mas gravamos por apenas cinco dias. O resto foi uma festa interminável, com gente entrando e saindo, como uma estação de trem. Entre uma bebedeira e outra, gravávamos trechos de piano ou bateria". As madrugadas eram preenchidas por maratonas de video nasties, filmes de horror italiano de diretores como Dario Argento, censurados no Reino Unido na época. 

Como Robert Smith estava legalmente impedido de cantar fora do Cure (restrição contratual que só viria a comentar abertamente anos depois), quem assumiu os vocais principais foi Jeanette Landray, ex-dançarina do Zoo e ex-namorada de Budgie. Smith, no entanto, aparece cantando em duas faixas: "Perfect Murder" e "Mr. Alphabet Says", essa última, com letra escrita por Severin.

A atmosfera do disco é uma mescla de psicodelia distorcida, ecos pós-punk e lirismo perturbador, com produção que oscila entre a espontaneidade e o delírio. O elenco de apoio também inclui nomes notáveis: Andy Anderson (futuro baterista do Cure), Martin McCarrick (colaborador de Marc Almond e futuro membro dos Banshees), além das violinistas Ginny Hewes e Anne Stephenson.

O The Glove durou pouco. A divulgação se limitou a uma apresentação no programa Riverside da BBC em outubro de 1983. Smith retornou ao Cure, Severin aos Banshees, e a luva flutuante sumiu no éter.

Mais de duas décadas depois, em 2006, o álbum foi reeditado em versão dupla, incluindo demos inéditas com vocais originais de Smith um verdadeiro tesouro para os fãs. Em 2013, Blue Sunshine ganhou uma reedição limitada em vinil azul, celebrando o Record Store Day.The Glove permanece como um projeto lateral sui generis, nascido do colapso e da fuga criativa, deixado à deriva entre as sombras do pós-punk e o espectro colorido da psicodelia sinistra.

Discografia

Blue Sunshine (1983, Polydor) 

Singles

 "Like an Animal"           (1983)

"Punish Me with Kisses" (1983)

Blue Sunshine, Primary, 1 of 9

 

domingo, 27 de abril de 2025

The Very Things

The Very Things é uma banda inglesa de pós-punk com fortes influências dadaístas, surgida em Redditch, Worcestershire, em 1983. Ativa até 1988, a banda ficou anos adormecida até surpreender em 2024 com a inesperada reunião e o lançamento do novo álbum, Mr Arc-Eye.

A história do The Very Things começa com o fim dos Cravats, outro nome essencial do pós-punk britânico. Com a dissolução do grupo em 1982, o guitarrista Robin Raymond (também conhecido como Robin R. Dalloway) e o baixista/vocalista The Shend (nome artístico de Chris Harz, também chamado Chris Shendo) decidiram seguir adiante, dando vida a uma nova entidade sonora. 

Para a formação inicial, recrutaram o baterista Gordon Disneytime (Robin Holland) e o baixista Jim Davis (ex-guitarrista da banda local CKV), que participou apenas dos primeiros shows. Em seguida, quem assumiu o baixo foi Steven Burrows (Fudger O'Mad ou Budge), também conhecido por seu trabalho no And Also the Trees.

Nos primórdios, o The Very Things também contava com uma animada seção de metais, com músicos como Vincent Johnson, John Graham, Robert Holland e Paul Green, ampliando ainda mais o experimentalismo sonoro do grupo. 

O single de estreia, "The Gong Man", saiu em novembro de 1983 pelo lendário selo Crass Records  uma conexão direta com a cena anarquista do período. No ano seguinte, já com contrato com a Reflex Records, lançaram o marcante "The Bushes Scream While My Daddy Prunes". Essa faixa, que beira o surrealismo sonoro, inspirou até um curta-metragem exibido no programa The Tube, da Channel 4.

O primeiro álbum, The Bushes Scream While My Daddy Prunes, foi lançado em agosto de 1984. Logo depois, o grupo reduziu-se ao trio essencial. Ao longo dos anos seguintes, lançaram diversos singles e EPs, mantendo o espírito irreverente e inventivo, ainda que enfrentando contratempos, como o cancelamento do lançamento de sua versão para "There's a Ghost in My House", de R. Dean Taylor, devido à concorrência inesperada de uma versão gravada pelo The Fall

Em 1988, o The Very Things se dissolveu oficialmente. No entanto, antes da separação, deixaram pronto o material que daria origem ao álbum Motortown, lançado posteriormente pela One Little Indian Records, trazendo uma inesperada influência Motown ao seu som.

Em 1994, a Fire Records reeditou os álbuns originais e uma coletânea de faixas não incluídas em álbuns  mantendo vivo o legado da banda no circuito underground. 

O grupo também gravou duas memoráveis sessões para John Peel uma em 1983 e outra em 1987,além de emplacar faixas como "The Bushes Scream While My Daddy Prunes" e "This Is Motortown" no lendário Festive Fifty da BBC.

Após o fim do The Very Things, The Shend formou outra banda chamada Grimetime, antes de iniciar uma carreira paralela como ator, participando de séries britânicas como EastEnders, Red Dwarf, The Bill, Men Behaving Badly e Torchwood

Agora, décadas depois, o retorno do The Very Things com Mr Arc-Eye prova que o espírito dadaísta e anárquico da banda segue tão afiado quanto nos dias em que os arbustos gritavam enquanto papai podava.

Discografia

The Bushes Scream While My Daddy Prunes (1984)

Live at The Zap Club, Brighton (1987)

Motortown (1988)  

It's a Drug, It's a Drug, It's a Ha Ha Ha, It's a Trojan Horse Coming Out of the Wall (1994)

The Very Things, Primary, 1 of 1