segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

Black Rain : Redefinição do pós-punk contemporâneo

 O Black Rain surge no Nordeste da Inglaterra, região historicamente associada à decadência industrial, ao isolamento social e a uma longa tradição de música sombria. É nesse ambiente frio, urbano e marcado por tensões que a banda se forma e começa a se destacar rapidamente dentro da nova geração do pós-punk britânico.

Desde seus primeiros passos na cena underground local, o Black Rain construiu uma identidade clara: música direta, atmosfera opressiva e total rejeição a qualquer tipo de neutralidade estética. Ainda em seus primeiros shows, a banda passou a chamar atenção por suas enérgicas apresentações ao vivo, elemento que rapidamente se tornaria central em sua proposta artística.

Embora se mova entre os territórios do post-punk e goth rock, o Black Rain nunca se posicionou confortavelmente dentro de um único rótulo. A própria banda sintetiza essa postura com um lema que se tornou assinatura.

Essa ambiguidade define não apenas o som, mas também a postura do grupo. O Black Rain se apresenta como uma banda que entende o passado Joy Division, UK Decay, Killing Joke, Southern Death Cult, mas se recusa a reproduzi-lo de forma passiva. O resultado é uma sonoridade crua, tensa e sem ornamentos desnecessários, que reflete tanto a herança industrial do norte inglês quanto a urgência do presente.

Lançado em 14 de julho de 2025, o álbum autointitulado Black Rain representa a consolidação dessa trajetória inicial. Mais do que um cartão de visitas, o disco funciona como um documento biográfico sonoro, capturando a essência da banda em estúdio e no palco.

A estrutura do álbum foge do convencional: são cinco faixas gravadas em estúdio e quatro registros ao vivo, uma escolha que evidencia a importância do desempenho físico e da entrega emocional como parte fundamental do projeto. O Black Rain não busca perfeição técnica, mas sim impacto.

As canções carregam um peso atmosférico constante, linhas de baixo dominantes, guitarras cortantes e vocais que oscilam entre o distanciamento ritualístico e a confrontação direta. É música feita para ecoar em espaços pequenos, suados e escuros, isto é, território fértil ao pós-punk.

Pouco tempo após o lançamento, o álbum começou a receber atenção de nomes centrais da crítica especializada. Mick Mercer, referência absoluta no universo goth, classificou o trabalho como “Best New Goth Album of the Week”, reconhecimento raro para uma banda em início de trajetória.

John Robb, do Louder Than War, destacou a capacidade do grupo de reinterpretar o lado mais sombrio do pós-punk de forma nova e convincente, ressaltando que o Black Rain não soa como uma repetição automática de fórmulas do passado.

Esse reconhecimento confirma algo que a cena underground já vinha percebendo: o Black Rain ocupa um espaço próprio dentro do pós-punk atual, distante tanto do revival estéril quanto da pasteurização alternativa.

A reputação construída em estúdio rapidamente se fortaleceu ao vivo. Após um show de estreia com ingressos esgotados, o Black Rain passou a dividir palcos com bandas como The Foreign Resort e Twisted Nerve, além de uma apresentação anunciada ao lado de The Chameleons, um dos nomes mais emblemáticos do pós-punk britânico.

O próximo passo já está definido: em 2027, o Black Rain realizará sua estreia internacional no Dark Skies Over Witten Festival, na Alemanha, um dos eventos mais respeitados do circuito pós-punk e goth europeu.

O álbum Black Rain está disponível nas principais plataformas de streaming, além de edições físicas em vinil, CD e cassete, reforçando a ligação da banda com a cultura underground e o valor do objeto físico.

Mais do que relatar o surgimento de uma nova banda, a trajetória inicial do Black Rain revela algo mais raro: coerência estética desde o início. Em um cenário frequentemente dominado por modismos e repetições, o Black Rain surge como um projeto que entende suas origens, assume suas contradições e transforma tudo isso em som.

Para o Caverna Sonora, trata-se de um nome que merece acompanhamento atento não como promessa futura, mas como presença real e já incômoda dentro do pós-punk contemporâneo.



sexta-feira, 10 de outubro de 2025

Social Youth Cult

 

Surgida das sombras industriais de Newcastle-upon-Tyne, a Social Youth Cult representa a nova geração do pós-punk britânico que não teme o confronto entre o ritual e o ruído. Formada há pouco menos de dois anos, a banda vem se firmando como uma das forças mais intensas e autênticas do cenário gótico e underground do norte da Inglaterra. O line-up da banda é formada por Shaun Greer (vocal) e (guitarra), Holly Moore (guitarra), Alex Thibaut  (bateria e vocais secundários) e Jack Stephenson (baixo).

No início, o grupo flertava com sonoridades mais darkwave, mas rapidamente abandonou a pele inicial para revelar algo mais denso e instintivo. Hoje, o som da SYC é marcado por uma energia percussiva e atmosferas carregadas, evocando a urgência ritualística do Killing Joke, o experimentalismo das primeiras bandas do pós-punk do norte inglês e a crueza de nomes como Bauhaus e The Pop Group. O resultado é um som que resiste à categorização: atmosférico e direto, sombrio e político, gótico e Gang of Four ao mesmo tempo. 

Com apresentações intensas e um público em expansão, a Social Youth Cult já tocou para plateias esgotadas em diversas cidades do Reino Unido, incluindo um show recente ao lado do Vision Video em Newcastle, consolidando sua reputação como uma das bandas mais vibrantes da cena contemporânea. 

O aguardado álbum de estreia, The Lighthouse, foi gravado no lendário The Bunker, em Sunderland, e reúne oito faixas que exploram os limites entre o transe e a desordem. O disco será lançado em 2 de novembro de 2025, antecedido pelo single “Close to Nothing”, que chega às plataformas digitais em 18 de outubro. Além das versões em streaming, o lançamento contará com edições em CD e fita cassete, seguidas por uma tiragem limitada em vinil LP

A Social Youth Cult fará o show de lançamento durante o Whitby Goth Weekend, um dos eventos mais emblemáticos da cultura gótica britânica, no dia 2 de novembro, no Crafty Cove. O grupo encerra o ano em plena ascensão, com novas datas ao vivo e a certeza de que seu culto apenas começou. 

 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Miserylab : Projeto de Porl King ( Rosetta Stone)

 A Death That We Can Cure, Primary, 1 of 9

Depois do fim do icônico Rosetta Stone em 1998, Porl King não desapareceu nas sombras ele simplesmente redirecionou sua energia criativa. Ainda no final dos anos 1990, ele deu início ao miserylab, projeto solo que, por muitos anos, foi mais uma entidade fantasmagórica do que uma banda tradicional. Inicialmente criado como um selo pessoal para remixes e produções (com clientes como o My Vitriol e os premiados Elbow), o miserylab logo assumiria vida própria.

O nome, originalmente grafado como misery:lab, carregava um duplo sentido tanto uma crítica séria à experimentação animal quanto um comentário autodepreciativo sobre o conteúdo melancólico de sua música. Após alguns esboços em 2000 que ficaram engavetados, King só passou a lançar material de fato em meados dos anos 2000, quando a produção de terceiros deixou de ser prioridade.

Em 2005, King ressuscitou o projeto via MySpace, plataforma essencial para músicos alternativos da época. Em 2007, soltou o Vaporware EP, disponível para download gratuito, com arte para impressão  um gesto DIY que ecoava o espírito dos fanzines. 

O primeiro álbum completo, Function Creep, saiu em abril de 2008 e marcou a transição para um som mais post-punk e centrado em guitarras. Apesar da preferência por lançamentos digitais, a demanda dos fãs por edições físicas resultou em uma tiragem limitada em CD. Pouco depois, veio uma versão estendida da faixa “Be There Tomorrow”.

O segundo disco, A Death That We Can Cure, foi lançado em 5 de novembro de 2008, propositalmente no aniversário da Conspiração da Pólvora, com referências políticas e sociais afiadas. A capa exibia um gráfico comparando mortes por terrorismo com as causadas pela fome. O título é tirado de uma das célebres bushisms (frases atrapalhadas do ex-presidente George W. Bush). Em 2009, saiu o terceiro álbum, Freedom Is Work, e, na sequência, uma coletânea na Rússia intitulada Lab Samples, reunindo faixas dos primeiros discos mais a soturna “No Cure For Life”.

O quarto álbum, From Which No Light Escapes, emergiu em fevereiro de 2011. Inicialmente com outra proposta lírica, foi retrabalhado por King para refletir os acontecimentos do turbulento 2010. Com resenhas favoráveis, a obra foi comparada a Joy Division e ao Killing Joke inicial. A revista Glass destacou o amadurecimento do som e a carga de crítica social presente nas letras.

Em maio, o single “Appeal to Fears” apareceu no SoundCloud, com vocais adicionais de Kathryn Woolley  que também participou de “Gods Amongst Your Friends”, lançada pouco depois como faixa avulsa. Em julho, o potente manifesto “Children of the Poor” foi lançado com videoclipe e, semanas depois, os distúrbios civis tomaram as ruas da Inglaterra. A faixa foi até utilizada em uma campanha da loja Schuh, criando um contraste curioso entre crítica social e marketing comercial. 

O quinto álbum, Void of Life, saiu em outubro de 2011 em edição limitada, acompanhado de um remix estendido de “Children of the Poor” e do vídeo de “People”. Com uma sonoridade mais lapidada, o disco rendeu elogios do site Brutal Resonance, que lhe deu nota 9/10 e comparou o impacto emocional da última faixa, “Last Day”, à intensidade de “The Top” do The Cure. O Dominion classificou o álbum como o segundo melhor do ano, atrás apenas do Esben and the Witch.No fim de 2011, mais duas faixas foram disponibilizadas: “five:one one” e “Fear for the Future”.

Em 2012, “Children of the Poor” e “People” ganharam lançamento em vinil sete polegadas, edição limitada a apenas 120 cópias, acompanhadas do EP digital Somewhere Between. No mesmo ano, saiu a compilação Documentary, unindo CD e vinil com faixas de Freedom Is Work em diante, via o selo francês D-monic. 

Porém, 2012 também marcou o surgimento de outro projeto de King: o enigmático In Death It Ends, voltado ao ocultismo e à ambientação sombria. Seu primeiro lançamento, Forgotten Knowledge, saiu em fita cassete  uma homenagem ao misticismo analógico dos anos 70. Com o crescimento desse novo projeto, o miserylab entrou em hiato. 

Em 2019, Porl King resgatou diversas faixas do miserylab e as lançou como Seems Like Forever, sob o nome Rosetta Stone trazendo o passado de volta com nova roupagem. O Rosetta Stone, inclusive, voltou a lançar material inédito em 2020, selando de vez a ponte entre as várias fases de sua trajetória.

 Discografia – miserylab (Álbuns de Estúdio)

  1. Function Creep – 2008

  2. A Death That We Can Cure – 2008

  3. Freedom Is Work – 2009

  4. From Which No Light Escapes – 2011

  5. Void of Life – 2011



 


segunda-feira, 5 de maio de 2025

Whirlywirld

Whirlywirld, foi um projeto de Ollie Olsen no final dos anos 70 e início dos 80. Surgida no caldeirão criativo de Melbourne, a banda foi a primeira de uma série de colaborações marcantes entre Olsen e o baterista John Murphy, dois nomes essenciais para quem quer entender a trilha mais obscura e eletrônica do underground australiano.

Ollie Olsen começou sua trajetória em 1976 como guitarrista da banda The Reals, que chegou a dividir palcos em salões suburbanos com os The Boys Next Door, banda seminal que mais tarde se transformaria no The Birthday Party. Após sua passagem pelos Reals e pelo breve projeto The Negatives.

Olsen fundou The Young Charlatans, ao lado de Rowland S. Howard, Jeffrey Wegener e Janine Hall um verdadeiro supergrupo embrionário, cujos membros deixariam marcas profundas em outras bandas lendárias como Laughing Clowns, The Saints e os próprios Boys Next Door.Apenas com essa ficha corrida, já daria pra colocar Olsen no panteão dos arquitetos do pós-punk australiano. Mas foi com a Whirlywirld que ele rompeu de vez com as convenções do rock.

Formada em 1978, a Whirlywirld nasceu com uma missão clara: deixar as guitarras em segundo plano e explorar sintetizadores, ruídos, loops e atmosferas eletrônicas, distanciando-se do formato tradicional das bandas punk da época. A formação inicial trazia Olsen (já imerso em “eletrônicos” ao invés de guitarra), Murphy na bateria e percussões variadas, além dos tecladistas Andrew Duffield e Simon Smith, e o guitarrista Dean Richards

Apesar de ensaiarem com rigor, a banda se apresentava ao vivo muito raramente. A estreia nos palcos aconteceu no lendário The Crystal Ballroom em 1979, pouco depois do lançamento do primeiro EP homônimo. Duffield sairia logo após para se juntar aos Models, sendo substituído por Philip Jackson.

Ao todo, a Whirlywirld fez apenas 14 apresentações ao vivo em toda sua existência — mas cada uma delas foi um evento. Mudanças de formação seguiram, com Richards, Jackson e Smith deixando a banda. Entraram Arnie Hanna (guitarra) e Greg Sun (baixo), enquanto Olsen e Murphy mergulhavam ainda mais fundo nas possibilidades sonoras com saxofone, clarinete, loops de fita e percussões eletrônicas

Essa nova fase da banda foi registrada em dezembro de 1979 no estúdio York St., resultando em um segundo EP, novamente autointitulado, lançado em fevereiro de 1980  um verdadeiro artefato sonoro de vanguarda.

Com o fim da banda, Olsen e Murphy seguiram juntos em projetos como The Beast Apparel, Hugo Klang (com performances na Inglaterra e o single Beat Up The Old Shack) e posteriormente na cultuada Orchestra of Skin and Bone. No fim dos anos 80, Olsen encerraria a parceria formando o grupo NO, enquanto Murphy seguiria sua jornada em outras frentes experimentais. 

Ambos ainda voltariam a se cruzar no Max Q, projeto inusitado de Olsen com Michael Hutchence, do INXS  uma colaboração que colocou músicos do subterrâneo lado a lado com o mainstream australiano.Em 1986, Olsen regravou "Win/Lose" para a trilha sonora do cultuado filme Dogs in Space, e a canção "Rooms for the Memory", cantada por Hutchence e originalmente da Whirlywirld, se tornaria um hit nacional em 1987 uma espécie de vingança tardia das sombras sobre os holofotes do pop.

Discografia

Whirlywirld -  ( 1979) Ep

Whirlywirld -  ( 1980) Ep

The Complete Studio Works (1986) Coletânea

 Singles

"Sextronics"/"Eyebrows Still Shaved" (1980)

The Complete Studio Works, Primary, 1 of 4

 

Voigt/465

Slights Unspoken, Primary, 1 of 6

Pouco antes da década de 1980 consolidar o pós-punk como linguagem global, um grupo de jovens australianos estava criando algo singular nos subterrâneos de Sydney. O Voigt/465, ativo entre 1976 e 1979, pode não ter tido o reconhecimento merecido em sua época, mas hoje figura como uma das bandas mais instigantes do cenário alternativo australiano.

Com uma sonoridade que misturava estruturas roqueiras à base de canções com experimentações livres e dissonantes, sua música carregava influências evidentes do krautrock e um espírito genuinamente "faça-você-mesmo".

Formado por um grupo de amigos de escola, Rod Pobestek (guitarra), Lindsay O’Meara (baixo), Phil Turnbull (sintetizador, órgão e vocais), Rae Macron Cru (vocais) e Bruce Stalder (bateria).O Voigt/465 começou seus primeiros ensaios em 1976, e se apresentou de forma esporádica ao longo de 1977. Em 1978, gravaram quatro faixas no Axent Studios, no subúrbio sul de Kogarah, dando os primeiros passos rumo a um legado curto, mas memorável. 

Com a saída de Stalder no meio de 1978, Mark Boswell assumiu as baquetas e a banda passou a se apresentar com mais frequência, ganhando certo culto entre o público alternativo de Sydney. Nesse mesmo ano, lançaram por conta própria o single “State” / “A Secret West”, utilizando duas das gravações feitas no Axent. Tocavam regularmente em casas como o Sussex Hotel, além de viajarem para apresentações em Melbourne, expandindo o raio de influência de seu som desconcertante.

O Voigt/465 foi apontado como a "banda de 1979" por Clinton Walker em Inner City Sound, livro fundamental que documenta o punk e pós-punk australianos. Mas o fim já se desenhava. Com a saída de O’Meara rumo ao Crime and the City Solution, os membros restantes decidiram gravar um último registro: o álbum Slights Unspoken, lançado em edição limitada em setembro de 1979. Mais do que uma despedida, o disco é um artefato raro que captura a tensão e a liberdade criativa de uma época em que tudo ainda estava sendo inventado. 

Após o fim, os caminhos seguiram em direções igualmente férteis. O’Meara voltou de Melbourne para se juntar ao Pel Mel, enquanto Turnbull cofundou o Wild West, grupo que também contou com Rae Macron Cru nos vocais.

O Voigt/465 permanece como uma joia escondida do pós-punk australiano não apenas pela sonoridade ousada, mas pela postura intransigente diante da indústria musical. Em tempos de transição, foram um ponto de ruptura. Um ruído necessário.

Discografia

Slights Unspoken (1979) 

"State" / "A Secret West" (1978)  Single

One Faint Deluded Smile CD (2001) Coletânea

sábado, 3 de maio de 2025

X-Beliebig

Formada no início dos anos 80, por Franz Heuschneider (vocais e guitarra),Günther Rettenbacher (baixo) e Ernst Weber (bateria).Com Guitarras ríspidas, percussões quase primitivas e letras carregadas de angústia e ameaça: assim era o som do X-Beliebig, banda que representou como poucas a face mais sombria da Nova Onda austríaca nos anos 80. Para muitos, eles foram a resposta da Áustria ao Joy Division, um trio que não apenas absorveu a estética pós-punk, mas a moldou com sotaque e contexto próprios, criando uma sonoridade inconfundível e visceral.

O X-Beliebig surgiu da cena alternativa de Viena, então fervilhando com influências vindas do punk, do krautrock e da eletrônica industrial. Seu álbum homônimo, X-Beliebig (1982), é considerado uma obra fundamental da Neue Deutsche Welle local, embora a banda estivesse sempre um passo à frente do rótulo. Com produção crua e um clima quase claustrofóbico, o disco trouxe um espírito inquieto e existencialista que ainda hoje ressoa nos ouvidos mais atentos. 

O single “Leben ist Blut” (“A Vida é Sangue”) destacou-se como um hino do subterrâneo europeu uma faixa marcada por sua intensidade lírica e estrutura minimalista, que fez sucesso entre os fanzines e rádios alternativas da época. Mesmo décadas depois, continua sendo um marco da contracultura sonora austríaca. Como bem definiu Martin Blumenau, respeitado jornalista da rádio FM4, “a melhor banda austríaca desconhecida da época”.

A banda se dissolveu por volta de 1983. Apesar da curta trajetória, o legado do X-Beliebig reverbera entre colecionadores de vinil obscuro e apaixonados pela estética dark do início dos anos 80. Suas canções dialogam com temas como alienação, corpo e política, antecipando inquietações que continuam pulsando no presente. A palavra “x-beliebig” significa, em alemão, algo como "aleatório", "qualquer um" ou "comum" uma ironia, já que a banda foi tudo, menos comum.

Discografia

O.Tannenbaum (k7) - 1981

X-Beliebig (1982) – LP

Leben ist Blut / Sehnsucht (1982) – single 7"

Coletânea

1980-1982 Complete Works   2015

X-Beliebig, Primary, 1 of 2

 

 

 





Tablewaiters

Ativa entre 1980 e 1986, a banda australiana Tablewaiters foi um daqueles nomes que, embora jamais tenham lançado um álbum completo, deixaram sua marca no submundo do pós-punk de Sydney. Formada pelo vocalista Graeme Synold e pelo tecladista Tony Ameneiro, ambos estudantes de arte na Alexander Mackie College of Advanced Education, o grupo logo se destacou pela sonoridade densa e performances intensas.

Após alguns ajustes iniciais na formação, a banda se estabilizou em 1981 com Gye Bennetts (ex-The Agents) na bateria, Ian Robertson no baixo e Ed Lee na guitarra, ao lado dos fundadores. Esse quinteto chegou a gravar um álbum, Gate, sob a produção do lendário Lobby Loyde, no estúdio Alberts em Sydney. No entanto, problemas financeiros impediram o lançamento do disco as fitas permaneceram em estado bruto, e algumas cópias piratas de baixa qualidade circularam com o tempo. O single planejado, “Between the Lines” / “Access”, também acabou engavetado. 

A banda era agenciada pela SCAM (Suss City Artist Management), responsável por outros nomes notórios da cena australiana como Sardine v, The Sunnyboys, Machinations e Local Product. O envolvimento com esse coletivo garantiu à Tablewaiters uma presença constante nos palcos, participando de turnês nacionais e abrindo shows para nomes consagrados como Simple Minds, The Psychedelic Furs, Split Enz, INXSA, Midnight Oil, Models, Eurogliders, Laughing Clowns, Hunters & Collectors e The Birthday Party.

Com a saída de Bennetts após as gravações de Gate, a bateria ficou a cargo de Phillip Hyrwka, também ex-The Agents. Em 1984, a banda lançou seu único registro oficial: o compacto duplo A-side “Scattered Visions” / “Small Quiet Children”, lançado pelo selo Powderworks Records & Tapes, com capa assinada por Ameneiro. As faixas capturam bem a estética melancólica e existencialista do grupo, com atmosferas sombrias sustentadas por sintetizadores marcantes e vocais dramáticos. 

No circuito local, o Tablewaiters foi figurinha carimbada em casas como Civic Hotel, Trade Union Club e Governor’s Pleasure, além de manter residências no clube Macy’s, em Melbourne. Com um som que flertava tanto com o pós-punk britânico quanto com o experimentalismo eletrônico, o grupo ganhou respeito entre músicos e público, mesmo sem alcançar projeção comercial.

Após a dissolução da banda em 1986, Tony Ameneiro seguiu carreira nas artes visuais, tornando-se um artista plástico reconhecido. Ed Lee mudou-se para Wollongong, onde tocou em diversas bandas locais, como ATE. Já em 1992, Lee e Ameneiro retomaram a parceria no projeto Chihuahua Chihuahua, lançando de forma independente um álbum homônimo. Gye Bennetts, por sua vez, seguiu em bandas como Johnny Kannis Band, Roddy Radalj and The Surfin' Caesars, Hitmen D.T.K., The Psychotic Turnbuckles e Klondike's North 40

Mesmo com uma discografia escassa, o Tablewaiters segue como uma peça intrigante do quebra-cabeça pós-punk australiano, um daqueles segredos bem guardados que o tempo transforma em relíquias sonoras. Um nome para se redescobrir nas entrelinhas da história subterrânea.

Discografia

Singles

"Between the Lines" / "Access by Invitation"  1981

"Scattered Visions" / "Small Quiet Children"   1984

Scattered Visions/Small Quiet Children, Primary, 1 of 4

quinta-feira, 1 de maio de 2025

Essential Logic

Poucas figuras do pós-punk britânico são tão singulares quanto Lora Logic, saxofonista e vocalista que, após sua saída precoce do X-Ray Spex em 1977, formou a enérgica e cerebral Essential Logic no ano seguinte. O grupo surgiu em meio à ebulição criativa do final dos anos 70, misturando o ímpeto do punk com estruturas desconstruídas, dissonância, saxofones agudos e vocais nervosos em um som que desafiava tanto a lógica musical quanto os padrões da indústria.

Formada em 1978, a banda tinha em sua formação original: Lora Logic nos vocais e saxofone, Phil Legg na guitarra e vocais, William Bennett (que depois fundaria o polêmico projeto Whitehouse) na segunda guitarra, Mark Turner no baixo, Rich Tea (Richard Thompson) na bateria e Dave Wright no saxofone. Pouco depois, Turner seria substituído por Sean Oliver, que mais tarde integraria o Rip Rig & Panic, grupo que também flertava com jazz punk e improvisação radical. 

O primeiro lançamento da banda foi um compacto 7" lançado de forma independente, pelo selo próprio Cells. Logo depois, veio um EP homônimo pela Virgin Records em 1979, e, não muito depois, o grupo assinou com a icônica Rough Trade

O disco de estreia, Beat Rhythm News (Waddle Ya Play?), também de 1979, é um clássico oculto do pós-punk: frenético, sincopado, atonal, repleto de grooves nervosos, saxofones caóticos e letras que misturam crítica social com uma estética surrealista.

O álbum foi bem recebido por uma crítica atenta ao experimentalismo da época, sendo comparado ao The Raincoats, Pere Ubu e This Heat, embora Essential Logic nunca tenha obtido a mesma visibilidade. A sonoridade da banda influenciaria posteriormente artistas mais experimentais do pós-punk e do no wave, com seu flerte entre o jazz free-form e a energia punk. 

Durante esse período (1978–1981), Lora Logic também colaborou com outros projetos de vanguarda. Tocou com os Red Crayola, participou de gravações do grupo finlandês Kollaa Kestää, além de contribuições com The Stranglers, The Raincoats e Swell Maps, bandas todas alinhadas ao espírito de invenção que permeava a cena alternativa do Reino Unido.

Apesar dos experimentos e colaborações, a banda se dissolveu em 1980, antes que seu segundo disco fosse finalizado. As gravações seriam lançadas mais tarde como o álbum solo Pedigree Charm (1982), mantendo a assinatura sonora de Logic, mas já em outro contexto: pouco após o lançamento, ela abandonaria a carreira musical ao se envolver com o movimento Hare Krishna, optando por uma vida espiritual afastada dos palcos e estúdios. 

A volta só aconteceria em 2001, com uma nova encarnação do Essential Logic. Nessa fase, Lora reuniu ex-integrantes da banda ska Bad Manners e o guitarrista Gary Valentine (ex-Blondie), e lançou um EP com quatro faixas inéditas. Em 2002, outras quatro faixas, gravadas em 1998, foram disponibilizadas pelo site Vitaminic, uma plataforma de distribuição digital pioneira. Em 2003, foi lançada a antologia Fanfare in the Garden pelo selo norte-americano Kill Rock Stars, trazendo faixas clássicas, raridades e material solo de Logic.

Após anos de silêncio, Essential Logic ressurgiu novamente em 2022 com o álbum Land of Kali, uma obra madura, lançada pela Dome of Doom Records. Com uma sonoridade mais contida, mas ainda pautada pelo espírito iconoclasta de sua fundadora, o disco reflete influências espirituais e políticas, com destaque para a faixa-título, que critica o estado do mundo moderno sob uma lente esotérica e mística. 

Essential Logic, apesar de seu status marginal, permanece como um dos projetos mais ousados e excêntricos da primeira leva pós-punk. Ao lado de bandas como The Slits, Kleenex/Liliput e The Raincoats, foi fundamental para abrir espaço a uma abordagem mais livre, feminina e criativa dentro do rock alternativo e merece ser revisitado por quem busca autenticidade no caos.

Discografia / Álbuns de estúdio

Beat Rhythm News (Waddle Ya Play?)   1979

Land of Kali   2022

Rekalibrated   2024

Beat Rhythm News - Waddle Ya Play ?, Primary, 1 of 6

Party Day

 Glasshouse, Primary, 1 of 6

Formada em 1981 na cidade de Wombwell, nas imediações de Barnsley, South Yorkshire, a Party Day foi uma dessas joias soterradas do pós-punk britânico que, apesar do reconhecimento limitado, deixou um legado sombrio e visceral. 

Originalmente um quarteto formado pelos guitarristas Martin Steele e Greg Firth, o baixista Carl Firth e o baterista Mick Baker, o grupo surgiu das cinzas do projeto Further Experiments (ativo entre 1979 e 1981), adotando o nome definitivo e uma nova proposta sonora que os colocaria entre os segredos mais bem guardados da cena alternativa inglesa.

Com uma sonoridade descrita como "goth de punho fechado com tons de pós-punk", a Party Day lançou seu primeiro single de forma independente em 1983, através do selo próprio Party Day Records: "Row the Boat Ashore" / "Poison", que foi recebido com entusiasmo pela imprensa underground "um som encantador e delicado, de beleza singular", resumia uma crítica da época. 

O segundo single, "The Spider", mergulhava mais fundo no caos melódico, sendo descrito como “um excelente uivo punk de sucata” e conquistando espaço no influente programa de John Peel na BBC Radio 1. A crítica antecipava: “esperamos continuar vendo o grupo arrancar as raízes da indústria musical desolada e insossa”.

Em 1985, a banda lançaria seu álbum de estreia, Glasshouse, uma obra intensa e coesa, considerada sua declaração mais poderosa: “o que eles fazem, fazem com ardor absoluto”. O disco consolidava o estilo característico do grupo composições melancólicas, sim, mas impregnadas de veneno punk. 

O segundo álbum, Simplicity (1986), dava continuidade à estética emocional e crua do grupo, com faixas como Glorious Days, descrita de forma peculiar por um crítico: “a ovelha negra encantadora, ainda que ligeiramente exagerada... algo que poderia comover até os calções de Mario Lanza”.

Outra pérola da banda foi "Rabbit Pie", lançada na coletânea Giraffe in Flames do selo Aaz Records. A crítica da época foi enfática: “o destaque é o som encorpado e guiado por guitarras do Party Day... vale comprar a compilação só por essa faixa”. 

Com uma base fiel de fãs no norte da Inglaterra, a Party Day era presença constante em palcos como o Leadmill em Sheffield e no circuito alternativo de Leeds. Seu impacto ao vivo também foi registrado na imprensa: o Sounds descrevia o grupo como “uma locomotiva movida por uma bateria implacável”, enquanto a NME resumia: “eles seguram suas guitarras como se fossem AK47s... eles vibram”.

Após o lançamento de Glasshouse, Martin Steele deixou a banda por motivos de saúde, o que levou a mudanças na formação. Embora novos integrantes tenham sido recrutados, o grupo encerrou as atividades em 1988, deixando um terceiro álbum inacabado pelo caminho.

Apesar do fim precoce, a aura da Party Day permaneceu viva nas entrelinhas do underground. A banda foi destacada no livro "Gothic Rock" de Mick Mercer, e sua música continua reverberando em clubes e rádios alternativas. A faixa Atoms, por exemplo, foi incluída na compilação Strobelight Records Vol. 3 (2006), mantendo aceso o interesse pela banda. 

Em 2020, o som da Party Day voltou a aparecer em livestreams de DJs europeus no World Goth Day, como os sets de Benny Blanco e na Dark Wave Radio.Em 2021, celebrando 40 anos desde os primeiros ensaios em garagens de Wombwell, a Optic Nerve Recordings lançou Sorted!, uma antologia abrangente com todos os registros da banda, incluindo demos. Uma cápsula do tempo que comprova: o que parecia um passo da obscuridade rumo à consagração, hoje é um convite ao resgate de uma das bandas mais emocionantes do goth-punk britânico.

Discografia

Glasshouse (1985)

Simplicity (1986)

Sorted! (2021)

Singles

"Row The Boat Ashore" c/w "Poison" (1983)

"Spider" c/w "Flies" (1984)

Eps

Glasshouse EP (1985)

Music for Pleasure

Music For Pleasure, Primary, 1 of 4

Foi uma banda britânica, formada em Leeds, Inglaterra, ativa entre 1979 e 1985. Com uma sonoridade que mesclava elementos de post-punk e synth-pop, o grupo se destacou na cena alternativa do norte da Inglaterra durante os anos 1980. Fundada por Martin King (baixo), Alan Peace (vocais), Sean Wheatley (bateria) e David Whitaker (teclados). Inicialmente assinados com a Rockburgh Records, contribuíram com a faixa "The Human Factor" para a compilação Hicks from the Sticks (1980), que destacava bandas emergentes do norte da Inglaterra .​

Em 1980, ocorreram mudanças na formação: Alan Peace e Sean Wheatley foram substituídos por Mark Copson (vocais) e Christopher Oldroyd (bateria), este último ex-integrante da banda Girls at Our Best!. Com essa nova formação, lançaram os singles "The Human Factor" (regravado) e "Fuel to the Fire" (1981), produzido por John Leckie, pela gravadora independente Rage Records .​

Em 1982, Ivor Roberts substituiu Martin King no baixo, e a banda assinou contrato com a Polydor Records. Sob a produção de Mike Hedges, lançaram o single "Switchback" (1982), seguido pelo álbum de estreia Into the Rain (1982), co-produzido por Hedges e pela própria banda. Do álbum, destacam-se os singles "Light" (1982) e uma nova versão de "Time" (1983). Ainda em 1983, lançaram "Dark Crash", também produzido por Hedges. Apesar do reconhecimento, foram posteriormente dispensados pela Polydor .​

Sem contrato com grandes gravadoras, o grupo criou seu próprio selo, Whirlpool, pelo qual lançaram o single "Disconnection" (1984), co-produzido por Colin Richardson, o EP Chrome Hit Corrosion (1984), produzido por John Porter, e o álbum Blacklands (1985). Após o lançamento deste último, a banda encerrou suas atividades .​

David Whitaker, tecladista da banda, integrou o grupo The Danse Society entre 1985 e 1986. Christopher Oldroyd, baterista, participou do segundo álbum da banda Red Lorry Yellow Lorry, Paint Your Wagon (1987) .​

Apesar de não terem alcançado grande sucesso comercial, o som atmosférico e melódico do Music for Pleasure, influenciado por Kraftwerk e pelo krautrock, contribuiu para a diversidade da cena musical de Leeds nos anos 1980, uma cidade que foi um polo importante para o desenvolvimento do post-punk e do goth rock .

Discografia

Into the Rain (1982)

Blacklands (1985)

Eps

Chrome Hit Corrosion (1984)

Singles

"The Human Factor" (1980)

"Fuel to the Fire" (1981)

"Switchback" (1982)

"Light" (1982)

"Time" (1983)

"Dark Crash" (1983)

"Disconnection" (1984)

 

terça-feira, 29 de abril de 2025

The Wild Flowers

Formada em Wolverhampton, cidade industrial no coração das Midlands inglesas, The Wild Flowers surgiu em 1983 como parte daquela geração de bandas pós-punk que começavam a trilhar caminhos além das sombras de Joy Division e Echo & The Bunnymen. 

A formação original contava com Neal Cook (vocais e guitarra), Dave Newton (guitarra), Mark Alexander (baixo) e Dave Fisher (bateria). Seu som unia a introspecção melódica do pós-punk à energia mais solar e melódica que já apontava para o indie pop britânico que viria nos anos seguintes. 

O disco de estreia, The Joy of It All, saiu em 1984 pelo pequeno selo Reflex Records – um trabalho ainda bastante ancorado nas paisagens sonoras melancólicas típicas do pós-punk do interior inglês. Dele saíram os primeiros singles: "Melt Like Ice" (1983) e "Things Have Changed" (1984), mostrando um grupo que equilibrava densidade emocional e ambições pop.

Pouco depois, o guitarrista Dave Newton deixa a banda para formar os The Mighty Lemon Drops, grupo que ganharia projeção como uma das promessas da cena neo-psicodélica britânica. Em seu lugar entra Dave Atherton, e a banda continua sua jornada lançando Dust em 1987, disco do qual se destacam os singles "It Ain't So Easy" (1985) e "A Kind of Kingdom" (1986). Nesse momento, o som da banda já flertava com o college rock americano e a transição para um som mais limpo e direto era perceptível. 

Em um movimento inusitado para bandas britânicas daquele período, o Wild Flowers decide mirar o mercado norte-americano. Em 1988, tornam-se a primeira banda britânica contratada pelo selo californiano Slash Records, conhecido por lançar nomes como X, The Germs e Violent Femmes

Por lá lançam Sometime Soon (1988), disco que marca a fase mais americana da banda, com uma sonoridade mais próxima ao jangle pop e ao alternative rock da costa oeste. Em 1990, consolidam essa estética com Tales Like These, que os levou a turnês pelos EUA e aparições em rádios universitárias.

Após um hiato, ainda lançariam um último álbum em 1997, Backwoods, um trabalho mais maduro, com forte influência do rock alternativo dos anos 90 e arranjos que mesclavam guitarras etéreas com uma pegada folk introspectiva.

Apesar de nunca terem alcançado o estrelato, The Wild Flowers representam uma ponte rara entre o pós-punk britânico das Midlands e a cena college rock americana – uma trajetória que merece ser redescoberta, especialmente por quem busca sons que habitam as margens entre o underground europeu e o alternativo estadunidense. 

Discografia

1984: The Joy of It All  

1987: Dust

1988: Sometime Soon

1990: Tales Like These

1997: Backwoods   

Singles

1983: "Melt Like Ice"
1984: "Things Have Changed"
1985: "It Ain't so Easy"
1986: "A Kind of Kingdom"
1988: "Broken Chains"
1988: "Take Me for a Ride"

The Joy Of It All, Secondary, 2 of 6


Spasmodic Caress

Entre as sombras do final dos anos 70 e início dos 80, surgia o Spasmodic Caress, banda inglesa de pós-punk/new wave que floresceu fora do eixo convencional de Manchester ou Londres. Formado por Peter Masters, o grupo fincou raízes na cena independente do leste da Inglaterra, circulando ativamente por cidades como Essex, Ipswich, Colchester e, claro, Londres , no qual dividiram palco com nomes hoje históricos.

A notoriedade do Spasmodic Caress atingiu um pico importante em 1980, quando gravaram a faixa “Hit the Dead” para a lendária coletânea Presage(s), lançada em vinil 12” pelo então incipiente selo 4AD Records. A compilação foi um marco da estética pós-punk britânica, crua, melancólica, instável e reuniu também Modern English, In Camera e Bauhaus, que, à época, ainda eram apenas apostas do underground. O grupo participou de vários shows promovidos pela 4AD em Londres, consolidando seu lugar no mapa de uma cena ainda em ebulição. 

Além da faixa presente na versão física, o grupo gravou também “Register of Electors”, registrada nas mesmas sessões e posteriormente incorporada à versão digital da coletânea uma joia rara redescoberta por colecionadores do selo.

Musicalmente, o Spasmodic Caress transita entre a rigidez do art punk e as atmosferas desoladas típicas do pós-punk minimalista, com letras carregadas de tensão urbana e niilismo suave. Sua sonoridade lembra por vezes o The Sound em seus momentos mais contidos, ou o Wire da fase Chairs Missing, sem perder um toque de originalidade marginal. 

Com o fim da banda por volta de 1984, o baixista Peter Ashby seguiu explorando as fronteiras da música experimental ao lado de Barry Lamb, fundando o The Insane Picnic, projeto ainda mais radical em sua abordagem DIY e eletrônica caseira.

Pouco lembrado nas narrativas canônicas do pós-punk britânico, o Spasmodic Caress é daqueles nomes que brilham à margem, símbolo de uma época em que as bandas não precisavam de grandes contratos para existir, apenas de ideias, fita magnética e noites longas em clubes de província.

Discografia

Hit the Dead" track on Presage(s) 12" (4AD) 1980

Hillside `79 cassette only release (Falling A) 1983

Fragments of Spasmodic Caress CD (Falling A ) 2004  

Fragments Of Spasmodic Caress, Primary, 1 of 3

 


The Glove- Projeto do Robert Smith e Steven Severin

 Em 1983, dois ícones do pós-punk britânico, Robert Smith, do The Cure, e Steven Severin, do Siouxsie and the Banshees, uniram forças em um raro momento de escape criativo, resultando no efêmero porém fascinante projeto The Glove. O único fruto dessa parceria foi o álbum Blue Sunshine, lançado naquele mesmo ano, envolto em psicodelia sombria, delírios lisérgicos e um certo caos criativo.

A gênese do projeto se deu num período conturbado para ambos os músicos. Em meados de 1982, Smith estava à beira de um colapso mental após o lançamento de Pornography, o álbum mais sombrio do Cure até então. O clima dentro da banda era de tensão extrema, agravado por abusos químicos e brigas internas  culminando na saída do baixista Simon Gallup. 

Quase ao mesmo tempo, Severin via os Banshees desmoronarem temporariamente quando o guitarrista John McGeoch sofreu um colapso nervoso em pleno giro pela Europa. McGeoch foi desligado, e Smith, já familiarizado com os Banshees (ele havia substituído John McKay na turnê Join Hands em 1979), assumiu as guitarras e foi oficialmente integrado à banda em novembro de 1982.

A parceria criativa entre Smith e Severin floresceu no final daquele ano. O primeiro registro que fizeram juntos foi "Punish Me with Kisses", ainda sem pretensão de formar um projeto paralelo. A ideia do The Glove, nome tirado da luva voadora do filme animado Yellow Submarine, dos Beatles, ganhou forma durante os meses seguintes, enquanto Siouxsie e Budgie se ausentavam da Inglaterra para gravar como o duo The Creatures.

Durante o processo de criação de Blue Sunshine, o clima era tudo, menos convencional. Smith descreveu as sessões como "irreais": "Passamos 12 semanas no estúdio, mas gravamos por apenas cinco dias. O resto foi uma festa interminável, com gente entrando e saindo, como uma estação de trem. Entre uma bebedeira e outra, gravávamos trechos de piano ou bateria". As madrugadas eram preenchidas por maratonas de video nasties, filmes de horror italiano de diretores como Dario Argento, censurados no Reino Unido na época. 

Como Robert Smith estava legalmente impedido de cantar fora do Cure (restrição contratual que só viria a comentar abertamente anos depois), quem assumiu os vocais principais foi Jeanette Landray, ex-dançarina do Zoo e ex-namorada de Budgie. Smith, no entanto, aparece cantando em duas faixas: "Perfect Murder" e "Mr. Alphabet Says", essa última, com letra escrita por Severin.

A atmosfera do disco é uma mescla de psicodelia distorcida, ecos pós-punk e lirismo perturbador, com produção que oscila entre a espontaneidade e o delírio. O elenco de apoio também inclui nomes notáveis: Andy Anderson (futuro baterista do Cure), Martin McCarrick (colaborador de Marc Almond e futuro membro dos Banshees), além das violinistas Ginny Hewes e Anne Stephenson.

O The Glove durou pouco. A divulgação se limitou a uma apresentação no programa Riverside da BBC em outubro de 1983. Smith retornou ao Cure, Severin aos Banshees, e a luva flutuante sumiu no éter.

Mais de duas décadas depois, em 2006, o álbum foi reeditado em versão dupla, incluindo demos inéditas com vocais originais de Smith um verdadeiro tesouro para os fãs. Em 2013, Blue Sunshine ganhou uma reedição limitada em vinil azul, celebrando o Record Store Day.The Glove permanece como um projeto lateral sui generis, nascido do colapso e da fuga criativa, deixado à deriva entre as sombras do pós-punk e o espectro colorido da psicodelia sinistra.

Discografia

Blue Sunshine (1983, Polydor) 

Singles

 "Like an Animal"           (1983)

"Punish Me with Kisses" (1983)

Blue Sunshine, Primary, 1 of 9

 

domingo, 27 de abril de 2025

The Very Things

The Very Things é uma banda inglesa de pós-punk com fortes influências dadaístas, surgida em Redditch, Worcestershire, em 1983. Ativa até 1988, a banda ficou anos adormecida até surpreender em 2024 com a inesperada reunião e o lançamento do novo álbum, Mr Arc-Eye.

A história do The Very Things começa com o fim dos Cravats, outro nome essencial do pós-punk britânico. Com a dissolução do grupo em 1982, o guitarrista Robin Raymond (também conhecido como Robin R. Dalloway) e o baixista/vocalista The Shend (nome artístico de Chris Harz, também chamado Chris Shendo) decidiram seguir adiante, dando vida a uma nova entidade sonora. 

Para a formação inicial, recrutaram o baterista Gordon Disneytime (Robin Holland) e o baixista Jim Davis (ex-guitarrista da banda local CKV), que participou apenas dos primeiros shows. Em seguida, quem assumiu o baixo foi Steven Burrows (Fudger O'Mad ou Budge), também conhecido por seu trabalho no And Also the Trees.

Nos primórdios, o The Very Things também contava com uma animada seção de metais, com músicos como Vincent Johnson, John Graham, Robert Holland e Paul Green, ampliando ainda mais o experimentalismo sonoro do grupo. 

O single de estreia, "The Gong Man", saiu em novembro de 1983 pelo lendário selo Crass Records  uma conexão direta com a cena anarquista do período. No ano seguinte, já com contrato com a Reflex Records, lançaram o marcante "The Bushes Scream While My Daddy Prunes". Essa faixa, que beira o surrealismo sonoro, inspirou até um curta-metragem exibido no programa The Tube, da Channel 4.

O primeiro álbum, The Bushes Scream While My Daddy Prunes, foi lançado em agosto de 1984. Logo depois, o grupo reduziu-se ao trio essencial. Ao longo dos anos seguintes, lançaram diversos singles e EPs, mantendo o espírito irreverente e inventivo, ainda que enfrentando contratempos, como o cancelamento do lançamento de sua versão para "There's a Ghost in My House", de R. Dean Taylor, devido à concorrência inesperada de uma versão gravada pelo The Fall

Em 1988, o The Very Things se dissolveu oficialmente. No entanto, antes da separação, deixaram pronto o material que daria origem ao álbum Motortown, lançado posteriormente pela One Little Indian Records, trazendo uma inesperada influência Motown ao seu som.

Em 1994, a Fire Records reeditou os álbuns originais e uma coletânea de faixas não incluídas em álbuns  mantendo vivo o legado da banda no circuito underground. 

O grupo também gravou duas memoráveis sessões para John Peel uma em 1983 e outra em 1987,além de emplacar faixas como "The Bushes Scream While My Daddy Prunes" e "This Is Motortown" no lendário Festive Fifty da BBC.

Após o fim do The Very Things, The Shend formou outra banda chamada Grimetime, antes de iniciar uma carreira paralela como ator, participando de séries britânicas como EastEnders, Red Dwarf, The Bill, Men Behaving Badly e Torchwood

Agora, décadas depois, o retorno do The Very Things com Mr Arc-Eye prova que o espírito dadaísta e anárquico da banda segue tão afiado quanto nos dias em que os arbustos gritavam enquanto papai podava.

Discografia

The Bushes Scream While My Daddy Prunes (1984)

Live at The Zap Club, Brighton (1987)

Motortown (1988)  

It's a Drug, It's a Drug, It's a Ha Ha Ha, It's a Trojan Horse Coming Out of the Wall (1994)

The Very Things, Primary, 1 of 1

 

The Transmitters

 The Transmitters, Primary, 1 of 6

The Transmitters foi uma banda britânica de art rock e pós-punk ativa do final dos anos 1970 até o fim da década de 1980. Misturando punk, jazz e psicodelia, o grupo foi constantemente elogiado pela crítica, mas, como tantas outras pérolas do underground, nunca atingiu sucesso comercial significativo.

Formada em Ealing, no oeste de Londres, em 1977, a formação original trazia John Quinn (vocal, também conhecido como John Clegg ou John X), Sam Dodson (guitarra), Simon "Sid" Wells (baixo), Amanda de Grey (teclado), Jim Chase (bateria) e Dexter O'Brian (letrista, verdadeiro nome Christopher McHallem). Em suas apresentações, guitarristas como Steve Walsh (Manicured Noise) e John Guillani (The Decorators) também passaram pela banda.

O single de estreia, "Party", saiu em 1978 pelo selo Ebony Records, seguido rapidamente pelo álbum 24 Hours. A energia caótica e imprevisível da banda os levou a dividir palco com nomes como The Police, The Human League, Scritti Politti, The Birthday Party, The Slits, Alternative TV e The Fall

Em 1979, gravaram a primeira John Peel Session, consolidando ainda mais sua reputação no circuito alternativo. No mesmo ano, lançaram os singles "Nowhere Train" e o EP "Still Hunting for the Ugly Man", este último chegando ao segundo lugar nas paradas alternativas da Our Price.

Críticos como Paul Morley (NME) e Chris Westwood (Record Mirror) não pouparam elogios, comparando a sonoridade dos Transmitters a bandas como The Fall, XTC, Magazine e This Heat, destacando também o carisma e a performance excêntrica de John Quinn, descrito como uma mistura de Mark E. Smith com Dave Allen

Após um breve fim em 1980, os integrantes se reorganizaram sob o nome Transmitters Presumed Dead, misturando membros de bandas como Missing Presumed Dead e contando com Tim Whelan (depois no Furniture e no Transglobal Underground) nos vocais. Essa fase logo evoluiu para uma nova formação dos Transmitters, agora com Rob Chapman (ex-Glaxo Babies) nos vocais, lançando o segundo álbum And We Call That Leisure Time em 1981 pela Heartbeat Records.

Durante os anos 1980, a banda passou por inúmeras mudanças de formação, e mesmo flertando com a world music e a eletrônica, manteve o espírito livre e experimental. Entre seus colaboradores, aparecem nomes como Dave "Mud-Demon" Muddyman (posteriormente no Loop Guru) e o produtor Bob Sargeant (também conhecido como "Hand of Borgus Wheems"). 

Apesar do fim definitivo em 1989, a influência dos Transmitters reverberou: Tim Whelan e Hamilton Lee lançaram o Transglobal Underground; Sam Dodson e Dave Muddyman criaram o cultuado Loop Guru, além de outros projetos como Slipper, Thaw e Loungeclash. Muitos integrantes também se envolveram com o inusitado projeto de música árabe e klezmer The Flavel Bambi Septet no início dos anos 1990.

Em 2007, os Transmitters reuniram-se para o lançamento da coletânea I Fear No One, incluindo sua primeira Peel Session, e tocaram no Inn on the Green, em Londres, com uma formação próxima da original. 

Com sua sonoridade anárquica, misturando ironia, psicodelia e crítica social, The Transmitters permaneceram como um dos grandes segredos guardados do underground londrino  um daqueles grupos que, se você conhece, sabe que pertence a um clube muito especial.

Nightingales

 Pigs On Purpose, Primary, 1 of 4

Formados em 1979 em Birmingham a partir dos remanescentes do The Prefects, os Nightingales surgiram como uma das bandas mais autênticas da cena pós-punk inglesa. Ao longo dos anos 80, liderados pelo carismático Robert Lloyd, conquistaram status cult com sua sonoridade crua e suas letras afiadas, ganhando forte apoio de John Peel.

Com passagens pela Rough Trade e Cherry Red Records, lançaram três álbuns essenciais: Pigs on Purpose (1982), Hysterics (1983) e In The Good Old Country Way (1986), além de acumularem mais sessões para a BBC Radio 1 do que quase qualquer outra banda da época. Após o encerramento em 1986, Lloyd seguiu em carreira solo, enquanto os ex-integrantes dispersaram em projetos paralelos e novos caminhos de vida.

O renascimento da banda em 2004 trouxe uma nova energia. Com discos como Out of True e No Love Lost, e participações em festivais como Glastonbury e SXSW, os Nightingales mostraram que a chama nunca se apagou. Trabalhando de maneira independente, lançaram For Fucks Sake e Mind Over Matter, reafirmando seu espírito livre e provocador.

Nessa nova fase, a banda reafirmou seu compromisso com a independência artística. Trabalhando fora das grandes gravadoras e ignorando convenções comerciais, lançaram discos como For Fucks Sake (2014) e Mind Over Matter (2015), materiais que mantêm viva a chama da honestidade crua e da criatividade livre que sempre os guiou. Com shows enérgicos pelo Reino Unido, Europa e EUA, os Nightingales conquistaram uma nova geração de ouvintes, bem como mantiveram antigos fãs.

O reconhecimento mais amplo de sua trajetória veio em 2021 com o lançamento do documentário King Rocker, dirigido por Michael Cumming e apresentado pelo comediante Stewart Lee. O filme traça o caminho improvável de Robert Lloyd e sua banda sempre à margem das tendências, mas com uma integridade inabalável que poucos de sua geração podem reivindicar. 

Os Nightingales permanecem como uma prova viva de que a verdadeira essência do pós-punk nunca esteve nas listas de sucesso, mas sim na resistência feroz e na capacidade de permanecer relevante, mesmo quando o mundo ao redor muda. Uma banda feita para aqueles que preferem a verdade crua à embalagem plástica e que, décadas depois, ainda soa tão necessária quanto antes.

Discografia – Álbuns de Estúdio 

  • Pigs on Purpose (1982)

  • Hysterics (1983)

  • In the Good Old Country Way (1986)

  • Out of True (2006)

  • What's Not to Love? (2007) (mini-álbum, mas frequentemente listado entre os álbuns de estúdio)

  • Insult to Injury (2008)

  • No Love Lost (2012)

  • For Fucks Sake (2014)

  • Mind Over Matter (2015)

  • Perish the Thought (2018)

  • Four Against Fate (2020)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Spherical Objects

Spherical Objects foram uma das bandas mais experimentais da cena pós-punk de Manchester,formada por Steve Solamar (Guitarra, Vocais), John Bisset Smith (Guitarra),Frederick Burrows (Baixo),Duncan Prestbury (Teclados) e Roger Hilton (Bateria) pertencendo a um coletivo musical que também contou com grupos como The Passage, Steve Miro & The Eyes, Tirez Tirez e Grow Up

Todas essas bandas estavam sob o selo Object Music, que funcionava mais como uma espécie de coletivo do que como uma gravadora tradicional, com músicos compartilhados entre os projetos. De fato, a Manchester Musicians Collective foi co-fundada por Dick Witts, do The Passage, o que reflete a natureza colaborativa e experimental da cena.

O líder e alma da banda foi Steve Solamar (nome verdadeiro Steve Scrivener), um compositor único, cujas letras e estilo vocal característicos dividem opiniões: ou "terríveis", ou, pelo menos, "idiossincráticos" 

Em 1978, a banda gravou seu primeiro LP, Past And Parcel, mas foi com os álbuns Elliptical Optimism (1979) e Further Ellipses (1980) que alcançaram seu auge criativo. O primeiro ainda trazia influências do punk e do garage rock dos anos 60.

Further Ellipses representa uma evolução, com o distanciamento do som DIY e uma forte ênfase nas melodias de sintetizador ultra-românticas (como nas faixas "The Final Part" e "The Root"), além de uma pitada de melancolia na guitarra latina e uma produção mais polida. No entanto, faixas como Set Free revelam uma forte influência do gospel e do rhythm and blues, um aspecto incomum para uma banda britânica de pós-punk da época.

Em 1980, Steve Solamar se uniu a Steve Miro, formando os Noyes Brothers, um projeto mais experimental que resultou no álbum duplo Sheep From Goats. Esse trabalho se distanciava das suas produções anteriores, explorando formas ainda mais incomuns de música experimental. 

Além disso, Solamar se envolveu com outros projetos como Warriors e Alternomen Unlimited, enquanto John Bisset Smith também tocou com o Grow Up, todas essas bandas gravando sob o selo Object Music.

Após 1981, pouco se soube sobre Steve Solamar ou os outros membros da banda. Solamar passou por uma transformação de gênero e, logo após o lançamento de No Man's Land, desfez os Spherical Objects e abandonou o selo Object Music, desejando uma mudança radical em sua vida.  

Duncan Prestbury seguiu sua carreira como professor no Manchester College (anteriormente City College Manchester) e se envolveu com Nu-Jazz. Ele também co-fundou as produtoras ganzfeldmusic e FireTrain Music. Entre 2008 e 2010, o selo LTM realizou uma extensa reedição do catálogo do selo Object Music, incluindo versões em CD de todos os quatro álbuns dos Spherical Objects, além da coletânea dos Noyes Brothers.

Discografia

Past And Parcel  ( 1978) 

The Kill/The Knot  (7", 1978)

Seventies Romance/Sweet Tooth  (7", 1979)

Objectivity The Object Singles Album (v.a, coletânea, 1979 )

Elliptical Optimism  (LP, 1979) (CD, 2008)

Further Ellipses  (LP, 1980) (CD, 2008) 

No Man's Land   (LP, 1981) (CD, 2008)

Spherical Objects, Primary, 1 of 1

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Au Pairs- Pós-punk de Birmingham

Formado em Birmingham em 1978, o Au Pairs foi um dos nomes mais incisivos da leva pós-punk britânica. Liderado pela poderosa e carismática Lesley Woods, descrita certa vez como “uma das mulheres mais marcantes do rock britânico”. O grupo existiu até 1983, deixando dois álbuns de estúdio, três singles e um rastro de provocações afiadas contra as normas de gênero e a política sexual da época.

O primeiro disco do Au Pairs, Playing with a Different Sex (1981), é considerado um clássico do pós-punk direto, seco e desconfortável. Faixas como “It’s Obvious” e “We’re So Cool” zombam do teatro relacional moderno com ironia cortante, enquanto “Armagh” denuncia com veemência a repressão britânica aos prisioneiros republicanos na Irlanda do Norte, com o refrão ácido: “we don’t torture”. Não havia espaço para meias-palavras. 

A banda chegou a ser filmada ao vivo em 1980 no cultuado documentário-concerto Urgh! A Music War, que eternizou várias pérolas underground da época.O segundo álbum, Sense and Sensuality (1982), mergulhou em experimentações com soul, funk, disco e jazz. Embora ousado, o disco não teve a mesma recepção crítica do anterior, talvez por suavizar um pouco as arestas do som direto e angustiado do debut.

Em 1983, após a saída da baixista Jane Munro, a banda recrutou Nick O'Connor (baixo, piano e sintetizadores), Jayne Morris (percussão e vocais), Graeme Hamilton (trompete) e Cara Tivey (teclados adicionais). Um terceiro álbum, que seria produzido por Steve Lillywhite, chegou a ser cogitado, mas nunca foi gravado. O fim veio logo depois, marcado, segundo Woods, pelo desgaste emocional de enfrentar um ambiente musical ainda profundamente hostil às mulheres.

Após o Au Pairs, Woods ainda montou um grupo só de mulheres, o The Darlings, mas acabou deixando o mundo da música. Hoje, sob o nome Lesley Longhurst-Woods, atua como advogada em Londres. O guitarrista Paul Foad lançou um livro didático sobre técnica de guitarra (The Caged Guitarist, 2000), Jane Munro virou terapeuta alternativa em Birmingham, e o baterista Pete Hammond segue como músico e professor de percussão. 

A crítica da época não ficou indiferente. Em 1981, Robin Denselow, do The Guardian, exaltava as letras do grupo como "ferozes, bem observadas, sobre a vida contemporânea, o amor e o papel da mulher". Na mesma época, durante a turnê americana da banda, o jornalista Richard Cromelin relatou a recepção calorosa do público no Whisky a Go Go, como se estivessem dizendo a Woods: “relaxa, você já mandou muito bem”.

A historiadora Gillian G. Gaar, no livro She’s a Rebel: The History of Women in Rock and Roll (2002), destacou a composição mista da banda como algo revolucionário. Mais do que só levantar bandeiras, o Au Pairs era um experimento vivo de colaboração e fricção entre gêneros, ritmos, ideias e corpos. 

Discografia

Playing with a Different Sex (1981) 

Sense and Sensuality (1982)

Singles

"You" / "Domestic Departure" (1980 )

It's Obvious" / "Diet" (1981)

"Inconvenience" / "Pretty Boys" (1981)