sexta-feira, 25 de abril de 2025

Au Pairs- Pós-punk de Birmingham

Formado em Birmingham em 1978, o Au Pairs foi um dos nomes mais incisivos da leva pós-punk britânica. Liderado pela poderosa e carismática Lesley Woods, descrita certa vez como “uma das mulheres mais marcantes do rock britânico”. O grupo existiu até 1983, deixando dois álbuns de estúdio, três singles e um rastro de provocações afiadas contra as normas de gênero e a política sexual da época.

O primeiro disco do Au Pairs, Playing with a Different Sex (1981), é considerado um clássico do pós-punk direto, seco e desconfortável. Faixas como “It’s Obvious” e “We’re So Cool” zombam do teatro relacional moderno com ironia cortante, enquanto “Armagh” denuncia com veemência a repressão britânica aos prisioneiros republicanos na Irlanda do Norte, com o refrão ácido: “we don’t torture”. Não havia espaço para meias-palavras. 

A banda chegou a ser filmada ao vivo em 1980 no cultuado documentário-concerto Urgh! A Music War, que eternizou várias pérolas underground da época.O segundo álbum, Sense and Sensuality (1982), mergulhou em experimentações com soul, funk, disco e jazz. Embora ousado, o disco não teve a mesma recepção crítica do anterior, talvez por suavizar um pouco as arestas do som direto e angustiado do debut.

Em 1983, após a saída da baixista Jane Munro, a banda recrutou Nick O'Connor (baixo, piano e sintetizadores), Jayne Morris (percussão e vocais), Graeme Hamilton (trompete) e Cara Tivey (teclados adicionais). Um terceiro álbum, que seria produzido por Steve Lillywhite, chegou a ser cogitado, mas nunca foi gravado. O fim veio logo depois, marcado, segundo Woods, pelo desgaste emocional de enfrentar um ambiente musical ainda profundamente hostil às mulheres.

Após o Au Pairs, Woods ainda montou um grupo só de mulheres, o The Darlings, mas acabou deixando o mundo da música. Hoje, sob o nome Lesley Longhurst-Woods, atua como advogada em Londres. O guitarrista Paul Foad lançou um livro didático sobre técnica de guitarra (The Caged Guitarist, 2000), Jane Munro virou terapeuta alternativa em Birmingham, e o baterista Pete Hammond segue como músico e professor de percussão. 

A crítica da época não ficou indiferente. Em 1981, Robin Denselow, do The Guardian, exaltava as letras do grupo como "ferozes, bem observadas, sobre a vida contemporânea, o amor e o papel da mulher". Na mesma época, durante a turnê americana da banda, o jornalista Richard Cromelin relatou a recepção calorosa do público no Whisky a Go Go, como se estivessem dizendo a Woods: “relaxa, você já mandou muito bem”.

A historiadora Gillian G. Gaar, no livro She’s a Rebel: The History of Women in Rock and Roll (2002), destacou a composição mista da banda como algo revolucionário. Mais do que só levantar bandeiras, o Au Pairs era um experimento vivo de colaboração e fricção entre gêneros, ritmos, ideias e corpos. 

Discografia

Playing with a Different Sex (1981) 

Sense and Sensuality (1982)

Singles

"You" / "Domestic Departure" (1980 )

It's Obvious" / "Diet" (1981)

"Inconvenience" / "Pretty Boys" (1981)

 

The Psylons- ( Portsmouth ) sul da Inglaterra

Formada em Portsmouth, no sul da Inglaterra, em 1984, a banda The Psylons emergiu como uma voz singular dentro do espectro do pós-punk britânico dos anos 80. Com uma sonoridade que transitava entre o experimentalismo tenso e paisagens sonoras densas e atmosféricas, o grupo era composto originalmente por Keith Wyatt, Carl Edwards, Jack Packer e Warren Grech.

Seu single de estreia, “Run To The Stranger”, chamou atenção logo de cara: foi escolhido como Single of the Week pela New Musical Express (NME) e alcançou a 13ª posição nos charts alternativos/indie da época  um feito significativo para uma banda de base completamente underground. 

Os Psylons lançaram, ao todo, quatro singles, um EP e dois álbuns completos. O segundo disco, intitulado “Gimp”, teve produção de Jim Shaw, integrante do Cranes banda com quem também dividiram palcos e afinidades estéticas, notadamente no uso de texturas melancólicas e estruturas não convencionais.

O reconhecimento do grupo não se limitou à crítica impressa: eles gravaram duas sessões para a BBC Radio One, uma para o lendário John Peel (fiel cartógrafo do underground britânico) e outra para Andy Kershaw, outro nome de peso na curadoria da música alternativa nos anos 80. Essas sessões ajudaram a ampliar o alcance do som hipnótico e por vezes dissonante dos Psylons, inserindo-os num circuito de culto que reverberava para além de Portsmouth. 

Nos anos seguintes, a banda se manteve ativa no circuito alternativo, fazendo inúmeros shows e abrindo para nomes de peso como The Fall, My Bloody Valentine, Cranes, Spiritualized e Moonshake um rol de artistas que, como os Psylons, estavam empenhados em desafiar os limites do rock tradicional com abordagens mais ruidosas, etéreas ou introspectivas.

Apesar das várias mudanças de formação ao longo dos anos, os Psylons continuaram sua jornada sonora até sua dissolução em 1995. O legado da banda, embora discreto, permanece como uma joia esquecida do pós-punk inglês, especialmente relevante para quem busca explorar além dos nomes consagrados. 

Após o fim da banda, o vocalista e multi-instrumentista Keith Wyatt seguiu carreira solo sob o nome Keith Seatman, aprofundando sua exploração de paisagens sonoras eletrônicas, hauntológicas e de estética retrofuturista, bastante em sintonia com a tradição experimental inglesa.

Discografia

Psylons Is Golden cassette 1988

Gimp CD 1994

Singles

"Run to the Stranger" / "Tumbling Clown" 7” single 1986

"Mockery of Decline" / "Clearer Sky" 7” single 1986  

All the Things We Need" / "Turning Worm" / "The Midnight Sun" 12” single 1987

No Choice" / "Surf Song" 7” single 1990

Sandman" / "Driver" / "Sandman" remix 12” EP 1991

The Psylons, Primary, 1 of 2

The Sinking Ships - Pós-punk de Wragby em Lincolnshire (Inglaterra)

Pouco lembrada fora dos círculos mais obscuros da música underground britânica, a banda The Sinking Ships (às vezes chamada apenas de Sinking Ships) emergiu no final dos anos 1970 com uma proposta sonora típica da efervescência pós-punk da época, melancólica, crua e instintiva. Formada no outono de 1979 na pequena cidade de Wragby, em Lincolnshire (Inglaterra), o grupo surgiu a partir das cinzas das bandas Berlin e Stress, reunindo os músicos Simon Brighton, Terry Welbourn, Colin Hopkirk e Nick Green.

Logo no início, em 1980, contribuíram com duas faixas para a obscura coletânea Household Shocks, dedicada a novos nomes da cena new wave e pós-punk local. Após esse lançamento, Hopkirk deixou o grupo. Na primavera do mesmo ano, gravaram o single "The Cinema Clock" / "Strangers", um compacto que se tornaria cult décadas depois.

 Nesse período, a formação da banda cresceu brevemente para seis integrantes antes de voltar a um trio em 1981, quando lançaram o compacto "Dream" / "After the Rain – Live" pelo selo Recession. Pouco depois, a banda se dissolveu. Apesar de sua trajetória breve e discreta, os Sinking Ships ainda se reuniriam ocasionalmente: uma primeira vez em 1987 e outra em 1998, apenas para algumas apresentações pontuais.

A redescoberta do grupo ganhou fôlego a partir de 2018, com o lançamento do EP ao vivo Playground Studios, Wragby, 1980, inicialmente publicado em sua página no Bandcamp e depois relançado em 2021 com o título Smiles and Guns EP. Nesse mesmo ano, a banda disponibilizou a coletânea The Cinema Clock ...And Other Stories, reunindo várias faixas de sua breve, mas intensa, passagem pela cena independente.

Em fevereiro de 2022, foi a vez de resgatar as gravações demo feitas no inverno de 1981–1982, logo após a primeira dissolução do grupo, compiladas no disco Post Sinking Ships Demos 1981. Poucos meses depois, veio Sinking Ships Live! 1981, com registros de performances em escolas e colégios de arte, preciosidades cruas da era DIY britânica. 

Já em junho de 2022, o grupo liberou o single "Over the Edge" / "History", com gravações de 1987 que surpreendem por sua sonoridade mais pop, destoando do típico pós-punk soturno que marcava seu repertório original.

Curiosamente, foi só em 2019 que os Sinking Ships chamaram a atenção de uma nova geração de ouvintes e da internet. Tudo começou quando a faixa "Strangers" apareceu na misteriosa mixtape Societas X Tape, criada pelo enigmático duo escocês Boards of Canada para a NTS Radio.  

O nome da banda, no entanto, não foi revelado na transmissão, o que levou muitos a especular sobre a origem da canção. A comunidade "lostwave", conhecida por investigar músicas obscuras e sem identificação, mergulhou de cabeça na busca.

Alguns chegaram até a sugerir que os autores de "Strangers" poderiam ser os mesmos da lendária "The Most Mysterious Song on the Internet", depois identificada como "Subways of Your Mind", do grupo Fex, devido à semelhança vocal e ao clima envolto em mistério. No entanto, após investigações, o próprio Simon Brighton veio a público esclarecer: o Sinking Ships nada teve a ver com Subways, pondo fim ao boato. 

Com esse revival inesperado, a história dos Sinking Ships voltou à tona e mostrou que mesmo as bandas com vidas breves podem deixar marcas duradouras no subterrâneo da música alternativa. Uma pequena cápsula do tempo, afundada nos anos 80 e redescoberta décadas depois.

Discografia

Sinking Ships Live! – 1981 (2022)

Playground Studios, Wragby, 1980. (2018) Ep

Singles

"The Cinema Clock" b/w "Strangers" (1980)

"Dream" b/w "After the Rain (Live)" (1981)

"Over the Edge"/"History" (2022, recorded in 1987)

Coletâneas 

The Cinema Clock ...And Other Stories (2021)

Post Sinking Ships Demos 1981 (2022) 

The Cinema Clock And Other Stories...., Primary, 1 of 1

Second Layer- Projeto do Adrian Borland do The Sound

O Second Layer foi um projeto pós-punk britânico formado em 1979 por Adrian Borland (vocais e guitarra) e Graham Bailey (baixo, teclados e programação de bateria), ambos também integrantes da lendária banda The Sound. Mas se engana quem espera aqui uma simples extensão da sonoridade da banda-mãe.

Logo em seu primeiro EP, Flesh as Property (1979), lançado pela obscura Tortch Records, o duo já deixava claro que a proposta era outra: mais fria, minimalista e impessoal, com camadas densas de sintetizadores e batidas mecânicas. No ano seguinte, eles aprofundaram ainda mais essa estética com o segundo EP, State of Emergency (1980). 

O único álbum de estúdio, World of Rubber, gravado na França e lançado em 1981 pelo selo Cherry Red, soa como uma cápsula claustrofóbica de paranoia futurista. A instrumentação eletrônica acentua o distanciamento emocional das faixas, em contraste com a urgência humana que marcava os trabalhos do The Sound. O nome do disco já dá pistas: um mundo artificial, maleável, sem contornos definidos  uma metáfora perfeita para o sentimento de alienação que perpassa cada faixa.

Em 2015, o selo norte-americano Dark Entries resgatou o legado do projeto com uma reedição completa da discografia, incluindo cinco demos inéditas – uma verdadeira dádiva para os arqueólogos do pós-punk subterrâneo. Adrian Borland, cuja trajetória foi marcada por intensos altos e baixos, faleceu em 26 de abril de 1999. Sua obra, porém, continua entre as sombras da música alternativa.

Se o The Sound era conhecido por sua melancolia romântica e introspecção lírica, o Second Layer caminhava na direção oposta. Como bem observou o The Quietus, em uma resenha retrospectiva de 2015: “A primeira coisa que se nota ao ouvir World of Rubber é o quanto o som e a estética do Second Layer são absolutamente distintos do The Sound. 

Enquanto o The Sound explorava um lirismo sombrio e emotivo, o Second Layer elimina tudo isso, substituindo-o por uma visão monocromática e mórbida, obcecada pelos efeitos desumanizantes da guerra, pela aniquilação nuclear e pela dissolução do eu em uma sociedade cada vez mais distorcida e mediada pela tecnologia.

Andy Kellman, do AllMusic, resumiu de forma direta: Eles mantinham algo do clima do The Sound, mas de uma maneira mais fria e distante, algo esperado quando sintetizadores e baterias eletrônicas substituem os elementos humanos. O Second Layer não era apenas um projeto paralelo. Era um espelho escuro, cujo Borland e Bailey refletiam os medos mais profundos do seu tempo,e talvez, também, do nosso.

Discografia

World of Rubber (1981)

Eps

Flesh as Property E.P. (1979)

State of Emergency E.P. (1980)

World of Rubber (2015, Dark Entries Records) - coletânea

Second Layer, Secondary, 2 of 2

Nyam Nyam - Oriundos da cidade de Hull

Em meio ao caos criativo da virada dos anos 80, uma banda emergiu das margens industriais de Hull, no nordeste da Inglaterra, com uma sonoridade melancólica, minimalista e profundamente emocional. O Nyam Nyam, formado em 1979, nunca se rendeu ao brilho do mainstream – e talvez por isso permaneça uma das joias mais cultuadas e obscuras do pós-punk britânico.

Seu primeiro lançamento, o single "When We Can’t Make the Laughter Stay" (1981), já revelava o tom grave e introspectivo que se tornaria a marca da banda. A faixa chamou atenção de ninguém menos que Peter Hook, baixista do New Order e um dos grandes arquitetos do som de Manchester. Hook não apenas se declarou fã da banda, como também produziu seu segundo single, o tenso e atmosférico "Fate/Hate", lançado pelo selo Factory Benelux em 1984 uma extensão europeia da lendária Factory Records. 

O som do Nyam Nyam carregava uma influência de Joy Division e The Sound, mas também dialogava com a urgência fria de bandas como The Comsat Angels ou o minimalismo emocional do Eyeless in Gaza. Com letras marcadas pela ambiguidade emocional e arranjos que alternavam densidade e vazio, a banda firmou seu estilo próprio.

Na sequência, o grupo assinou com o selo Situation Two, uma subsidiária da Beggars Banquet, conhecida por abrigar nomes como The Fall e Bauhaus em momentos distintos. Foi por lá que lançaram seu único álbum, o subestimado e belíssimo Hope of Heaven (1984), um disco sombrio e envolvente que mergulha em atmosferas góticas sem jamais cair no pastiche. Em 1985, lançariam o EP "The Architect", encerrando sua breve discografia com mais um registro denso e de forte carga emotiva. 

Apesar do respaldo crítico, os discos não atingiram grandes números de vendas e a banda acabou sendo descartada pela gravadora um destino trágico, porém comum na cena independente da época. O vocalista e letrista Paul Trynka, após o fim do grupo, seguiu carreira como jornalista musical e chegaria a editar a influente revista Mojo, além de publicar biografias sobre ícones como Iggy Pop, David Bowie e Brian Jones.

Outro detalhe que contribuiu para o culto em torno do Nyam Nyam foram os belíssimos projetos gráficos assinados por Vaughan Oliver, do coletivo 23 Envelope, que também criou artes visuais memoráveis para selos como a 4AD. O design visual ajudava a reforçar a estética melancólica e etérea que a música da banda transmitia. 

Em 2012, a gravadora LTM Recordings resgatou a obra da banda em uma reedição remasterizada de Hope of Heaven, incluindo a maioria das faixas dos singles e um novo registro feito pela banda naquele mesmo ano: a canção inédita "Doubt". Um retorno inesperado e silencioso, como a trajetória da banda.

Hoje, Nyam Nyam permanece como um dos segredos mais bem guardados da cena pós-punk britânica. Sua curta discografia é um relicário de sentimentos densos e belas ruínas sonoras  uma trilha sonora perfeita para o lado mais escuro da alma. 

Discografia

Hope Of Heaven  1984

Singles & Eps

When We Can't Make Laughter Stay / Knowledge  1981

Fate/Hate      1984

The Architect    1985

Nyam Nyam, Primary, 1 of 1

 

 

 

 

Mass - Das Cinzas do Rema-Rema

Entre os breves lampejos da cena pós-punk britânica no início dos anos 80, o Mass permanece como uma dessas joias obscuras que, embora de vida curta, deixaram uma marca densa e reverberante. Formado por Gary Asquith, Michael Allen, Mark Cox e Danny Briottet, o grupo nasceu das cinzas do Rema-Rema, projeto seminal da 4AD que também contou com a presença de Marco Pirroni (futuro Adam and the Ants).

Em 1980, o Mass lançou seu primeiro registro: o compacto "You and I", um 7” que já exalava o clima gélido e opressivo que viria a se firmar no único álbum completo da banda. Labour of Love, lançado em 1981 também pela 4AD, foi um trabalho sombrio, minimalista e claustrofóbico.

Frequentemente comparado à intensidade existencial do Joy Division e à ferocidade dissonante do The Birthday Party. O disco chegou a figurar por cinco semanas no UK Indie Chart, atingindo a 19ª posição  um feito considerável para um projeto tão marginal e enigmático.

Labour of Love não é um álbum que busca agradar ou seguir tendências: é cru, áspero e deliberadamente anticomercial. As faixas são marcadas por linhas de baixo angulares, guitarras que mais soam como lâminas metálicas e vocais que oscilam entre o desesperado e o enigmático. Trata-se de uma obra que parece ter sido concebida nas sombras, como um desabafo sombrio de uma Londres fragmentada pós-industrial.

O Mass se dissolveu ainda em 1981, pouco depois do lançamento do LP. No entanto, seus membros seguiram caminhos que continuaram moldando os contornos do pós-punk e do underground eletrônico britânico. Michael Allen e Mark Cox fundaram o The Wolfgang Press em 1983, uma das bandas mais consistentes e inventivas do catálogo da 4AD nos anos seguintes, mergulhando em experimentações que misturavam dub sombrio e art rock. 

Gary Asquith e Danny Briottet optaram por caminhos mais voltados à cultura de rua e à fusão de gêneros, fundando o Renegade Soundwave em 1986  um grupo que incorporou elementos de industrial e dub, antecipando muito do que viria a se tornar a cultura rave nos anos 90.

O culto em torno do Mass nunca desapareceu completamente. Em 2005, Labour of Love foi relançado em CD, incluindo as duas faixas do compacto "You and I" como bônus. Em 2011, o selo francês Desire Records resgatou o álbum em vinil, ampliando seu alcance para uma nova geração de colecionadores e fãs do obscuro. 

Hoje, o Mass permanece como um elo esquecido porém essencial entre as tensões do pós-punk inaugural e os experimentos que viriam a desaguar no som mais híbrido e eletrônico da década seguinte. Um fragmento de tempo congelado em ruídos, silêncios e pulsos mecânicos que continuam a ecoar para quem se arrisca a escutar.

Discografia

Labour of Love (1981)  4AD

Singles 

"You and I"/"Cabbage" (1980), 4AD 

Mass (4), Primary, 1 of 1

quarta-feira, 23 de abril de 2025

The Lucy Show

O embrião do que viria a ser o The Lucy Show surgiu sob o nome de Midnite Movie, com Mark Bandola (vocais, guitarra, teclados) e Rob Vandeven (vocais, baixo) à frente da formação, acompanhados inicialmente pelo baterista Paul Rigby. A parceria com Rigby durou pouco, e logo a formação foi reforçada por Pete Barraclough (guitarras, teclados) e Bryan Hudspeth (bateria). Foi nesse momento que o grupo adotou o nome definitivo: The Lucy Show.

Bandola e Vandeven, dois amigos canadenses que haviam se mudado para a Inglaterra no fim dos anos 70  dividiam tanto a composição quanto os vocais principais. Ainda assim, o material inicial da banda era majoritariamente assinado por Vandeven, o que moldou o som melancólico da primeira fase.

Em 1983, a banda lançou seu primeiro single, Leonardo da Vinci, pelo selo independente Shout Records. A faixa conseguiu algum destaque ao ser tocada por John Peel na BBC. Curiosamente, foi o guitarrista Barraclough quem assumiu os vocais principais no lado B, com a faixa Kill The Beast.  

No ano seguinte, a A&M Records assinou com a banda e lançou dois singles e um EP sob o selo Piggy Bank, subsidiária da gravadora. Um momento importante aconteceu ainda em 1984, quando a banda enviou uma fita demo para o R.E.M. e acabou convidada para abrir a turnê britânica dos norte-americanos um raro reconhecimento vindo de fora do mainstream.

Em 1985, veio o aguardado álbum de estreia: ...undone. Com guitarras atmosféricas, uma sonoridade densa e introspectiva próxima de nomes como The Cure e Comsat Angels, o disco recebeu críticas elogiosas e alcançou o primeiro lugar nas paradas da revista College Music Journal (CMJ), nos Estados Unidos, feito nada comum para uma banda britânica com tão pouca exposição comercial. Mas a euforia logo deu lugar à frustração: no fim do mesmo ano, a filial britânica da A&M decidiu dispensar o grupo.

Em 1986, o The Lucy Show assinou com a Big Time Records, uma gravadora independente, e lançou seu segundo disco, Mania. Produzido por ninguém menos que John Leckie (futuro colaborador de nomes como The Stone Roses e Radiohead), o álbum marcou uma guinada sonora: guitarras acústicas, piano, gaita, sintetizadores e até metais passaram a fazer parte da paisagem sonora.  

O novo direcionamento trouxe frescor à banda e rendeu bons frutos novamente liderando as paradas da CMJ, e, pela primeira vez, ganhando espaço na MTV com o clipe da faixa A Million Things. Tanto ela quanto o single New Message se tornaram hits no circuito de rádios universitárias.

Mas a maré virou outra vez. A Big Time Records faliu pouco depois do lançamento de Mania, e a banda viu-se sem apoio. Barraclough e Hudspeth foram dispensados, e a dupla Bandola/Vandeven ainda tentou mais uma cartada: lançaram o single Wherever Your Heart Will Go em 1988, pelo obscuro selo Redhead Records. Sem repercussão, ambos decidiram encerrar de vez as atividades do The Lucy Show.

Com o passar dos anos, a banda passou a ser redescoberta por fãs de pós-punk e rock alternativo dos anos 80. Em 2005, Mania foi relançado em CD pelo selo Words on Music, com faixas bônus. Em 2009 foi a vez de ...undone finalmente ganhar uma edição em CD. E, em 2011, saiu Remembrances, uma coletânea com gravações raras e inéditas dos tempos áureos da banda um lembrete melancólico e poético de uma carreira marcada por belas canções e uma sequência de tropeços da indústria. 

Discografia 

Álbuns de estúdio

 ...undone   1985

     Mania    1986

Live, Bath, Moles Club  1987

Remembrances   2011

...Undone, Primary, 1 of 7