quarta-feira, 23 de abril de 2025

Bush Tetras: O underground nova-iorquino

 Bush Tetras in Boston, 1980

Formado em 1979, o Bush Tetras surgiu das entranhas fervilhantes da cena pós-punk e no wave de Nova York. A formação clássica logo se consolidou com Cynthia Sley nos vocais, Pat Place na guitarra, Laura Kennedy no baixo e Dee Pop na bateria, embora, nos primeiros instantes, Adele Bertei e Jimmy Joe Uliana também tenham passado brevemente pela banda. Pat Place, aliás, já era figura emblemática: foi guitarrista fundadora dos Contortions, uma das bandas mais icônicas do movimento no wave, e também apareceu em filmes da artista Vivienne Dick.

O nome da banda nasceu da mistura inusitada entre dois seres que os membros achavam simpáticos: o bush baby (um pequeno primata africano) e o neon tetra (um peixe tropical de aquário). O resultado, "Bush Tetras", soava exótico, tribal, perfeito para o tipo de som que estavam prestes a lançar ao mundo.

O primeiro registro, o explosivo EP 7” "Too Many Creeps", saiu em 1980 pela 99 Records. A faixa-título se tornou um clássico imediato nas pistas alternativas, chegando ao 57º lugar na parada club play da Billboard. No ano seguinte, o EP "Things That Go Boom in the Night" saiu pela britânica Fetish Records e alcançou o 43º lugar no UK Indie Chart. 

Ainda em 1981, veio "Rituals", um 12” produzido por ninguém menos que Topper Headon, baterista do The Clash, o disco trazia a contagiante “Can’t Be Funky” e saiu tanto na Fetish quanto na Stiff Records, atingindo a 32ª posição nas pistas norte-americanas.

Em fevereiro de 1981, o Bush Tetras subiu ao palco do Rainbow Theatre em Londres para um evento documentado na compilação Start Swimming, da Stiff Records ao lado de nomes como Bongos, Raybeats e dBs, apresentaram uma versão de “Cold Turkey”, de Lennon, e a faixa “Punch Drunk”. Já em 1983, a ROIR lançou Wild Things, um registro ao vivo em fita cassete. 

Pouco tempo depois, a formação ruiu: Kennedy e Dee Pop saíram e foram substituídos brevemente, mas a banda acabou encerrando suas atividades. A ROIR ainda lançou em 1989 a coletânea Better Late Than Never, resgatando gravações de estúdio feitas entre 1980 e 1983.

Mesmo durante o hiato, o Bush Tetras seguia ecoando no underground. Suas faixas apareceram na trilha do filme experimental Cave Girls (1984), de Kiki Smith e Ellen Cooper uma obra turva e ruidosa, perfeita para o som dissonante da banda. 

O reencontro veio em 1995, com a formação original de volta à ativa. Dois anos depois, lançaram o álbum Beauty Lies e reeditaram as antigas gravações com os álbuns Boom in the Night (1995) e Tetrafied (1996). Em 1998, gravaram um novo disco com o produtor Don Fleming para a Mercury Records, o álbum, chamado Happy, ficou engavetado por anos após a venda da gravadora e só viria a público em 2012, pelas mãos da ROIR.

Apesar das  mudanças na formação, Julia Murphy assumiu o baixo em 1997, seguida por Cindy Rickmond em 2013 e Val Opielski em 2016, a banda seguiu viva, lançando o EP Take the Fall em 2018 pela Wharf Cat Records e o single “There Is a Hum” em 2019 pela Third Man Records. 

Em outubro de 2021, a banda sofreu uma perda irreparável com a morte do baterista Dee Pop. Pouco depois, saiu a caixa comemorativa Rhythm and Paranoia: The Best of the Bush Tetras, reunindo faixas essenciais e textos assinados por figuras como Topper Headon (The Clash) e Thurston Moore (Sonic Youth). No show de lançamento no Le Poisson Rouge, em Nova York, Don Christensen (produtor de “Too Many Creeps”) assumiu a bateria e RB Korbet estreou no baixo.

O tributo a Dee Pop continuou em março de 2022, com um show especial no Bowery Electric, onde Steve Shelley (Sonic Youth) participou na bateria. Já em abril de 2023, foi anunciado que Cait O’Riordan, ex-baixista dos Pogues, havia se juntado ao grupo.

Diante do exposto percebe-se que O Bush Tetras é mais do que uma banda, é um testemunho vivo da criatividade e da resistência do underground nova-iorquino. Com sua sonoridade rítmica e cortante, o grupo ajudou a moldar uma linguagem própria dentro do pós-punk. Ainda após décadas, suas batidas tribais e letras incisivas continuam reverberando em novas gerações. Aqui no Caverna Sonora, sigo escavando essas camadas esquecidas da história da música para manter acesa a chama do que realmente importa: a música que pulsa das margens. 

Discografia

Beauty Lies (1997) 

Happy (gravado em 1998, lançado apenas em 2012)

They Live in My Head (2023) 

Singles

Too Many Creeps / "You Can't Be Funky" (1980) 

Things That Go Boom in the Night / "You Taste Like the Tropics" (1981)

Can’t Be Funky / "Funk Dub" (1981) 

You Can’t Be Funky (Remix) (1982)

There Is a Hum / "Seven Years" (2019)

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